Por: Cláudio Magnavita*

Coluna Magnavita | Duas respeitadas jornalistas analisam o açodamento da Ministra Cármen Lúcia no julgamento do Governador do Rio no TSE

Ministra Cármen Lúcia | Foto: Victor Piemonte/STF

A ministra Cármen Lúcia é hoje a única mulher no Supremo Tribunal Federal. Neste papel, lhe é muito caro a questão do gênero e o fato de ser observada pela sociedade neste momento delicado que a corte vive.

Ela foi brilhante como presidente do STF e soube defender a dignidade da instituição, passando o seu mandato sem maiores arranhões.

Agora, na reta final da presidência do TSE- Tribunal Superior Eleitoral, a ministra Cármen Lúcia se depara em um momento delicado. Indiretamente ela está importando para a corte eleitoral arranhões de imagem que estavam restritos ao Supremo e ao próprio passado de gestões anteriores do TSE, que ela tanto se distanciou.

Voltando à questão de gênero que lhe é tão cara, neste final de semana, que encerra a primeira quinzena de março de 2026, duas mulheres expoentes do jornalismo realizaram, simultaneamente, observações preocupantes sobre a postura e açodamento do Ministra Cármen Lúcia no julgamento do Governador do Rio, Cláudio Castro.

A primeira foi a colunista Andreza Matais, publicando na sua coluna no Metrópoles, notícia com o título “Pressa de Cármen surpreende e julgamento de Castro deve ser adiado”. No subtítulo a informação: “A pressão da ministra para acelerar o julgamento causou estranheza entre seus pares. Cármen Lúcia ficou meses com processo parado”.

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Coluna da jornalista Andreza Matais no Metrópoles | Foto: Reprodução

Na matéria, Andreza revela: “Numa pressão incomum, a presidente da Corte, ministra Cármen Lúcia, pautou a votação para o dia 24 de março, mesmo com o caso ainda em estudo no gabinete do ministro Kassio Nunes Marques, que solicitou mais tempo para analisar o assunto na última sessão.”

Continua a jornalista: “A pressão da ministra para acelerar o julgamento causou estranheza entre seus pares, pois contrasta com a postura adotada até o momento. Cármen Lúcia levou meses para pautar a votação e agora cobra pressa dos colegas.

A mudança de ritmo ocorre a menos de dois meses de o governador ter que renunciar ao mandato para disputar as eleições deste ano.”

Neste mesmo final de semana, em O GLOBO, foi a vez da jornalista Malu Gaspar bater na mesma tecla da sua colega Andreza Matais. São duas mulheres expoentes do jornalismo brasileiro colocando a lupa no comportamento da ministra Cármen Lúcia. Não há, portanto, nem um viés misógino na crítica de Malu e Andreza, apenas a soberania dos fatos, que acabam criando um delicado debate sobre o súbito açodamento de Carmen Lúcia sobre este processo. Malu faz também uma análise lúcida sobre as consequências desta pressa no terceiro maior colégio eleitoral do país.

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Publicação de Malu Gaspar, em O Globo | Foto: Reprodução

Afirma Malu Gaspar em O GLOBO:

“O comportamento da presidente do TSE tem chamado a atenção nos bastidores. Em 27 de junho do ano passado, Gallotti liberou o processo para julgamento. Mas Cármen, responsável pela definição das pautas das sessões plenárias da Corte Eleitoral, só marcou o início do julgamento quatro meses depois, em 4 de novembro. A ministra marcou a análise do caso logo depois da operação policial mais letal da história do Rio, que resultou na morte de 122 pessoas nos Complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte do Rio.

A atitude de Cármen de discutir a sobrevivência política do Castro em meio aos desdobramentos da operação provocou incômodo entre ministros, que consideraram “muito ruim” o timing, e apontaram que a ofensiva da presidente poderia aparentar oportunismo político do tribunal.”

Não há nada mais perigoso no judiciário do que a contaminação de um processo por “oportunismo político do tribunal.” A Ministra Cármen Lúcia, na presidência do TSE, até de forma involuntária, acaba ampliando a crise de imagem que se instalou no STF. Conduzir de forma açodada este processo não funciona como vacina para uma crise de imagem do judiciário, pelo contrário, só agrava.

Malu Gaspar aponta as consequências nefastas para o cenário eleitoral: “O formato de uma eventual nova eleição no terceiro maior colégio eleitoral abre margem para mais uma discussão jurídica. Isso porque o atual Código Eleitoral prevê que se a cassação de Castro ocorrer a menos de seis meses do fim do mandato, ou seja, até 5 de julho, a eleição será indireta. E se ocorrer antes desse prazo, a votação será direta – o que seria o cenário se o TSE concluir o julgamento do governador do Rio ainda neste mês.”

A chapa majoritária já foi lançada oficialmente e todos sabem que Cláudio Castro irá renunciar para concorrer ao Senado. É uma questão de dias para se decidir sobre uma eleição direta ou indireta.

No mesmo artigo, Malu Gaspar faz ressalva: “Mas há precedente do TSE – antes da atual redação do Código Eleitoral – que entendeu pela eleição indireta mesmo nesse segundo cenário, por concluir que a realização de duas eleições diretas num prazo tão pequeno fere o “princípio da razoabilidade”, com o uso de recursos públicos para um mandato-tampão de poucos meses. Além disso, a Constituição do Rio de Janeiro prevê que, se houver dupla vacância nos dois últimos anos de mandato de governador e vice, a eleição será indireta."

A questão de gênero é importante para a Ministra Cármen Lúcia e as duas reflexões feitas por duas importantes jornalistas políticas merecem uma leitura mais profunda.