A trajetória de Daniel Vorcaro é fruto dos avais e chancelas que recebeu durante a sua curta trajetória na Faria Lima. A sua credibilidade existiu até desmoronar com a operação da Polícia Federal.
O ápice da sua trajetória de “sucesso” foi em maio de 2024, quando ele foi a estrela de um evento em Nova Iorque. Naquele 15 de maio, ele conseguiu a chancela de credibilidade do maior veículo de economia do Brasil. Uma carta de fiança que funcionou como um selo de credibilidade. O jornal Valor Econômico, do grupo GLOBO, é considerado a Bíblia do mercado financeiro.
Vorcaro foi o primeiro orador e principal patrocinador do primeiro Summit Valor Econômico Brazil-USA, que abriu as comemorações dos 25 anos do diário. O evento, realizado no Hotel Plaza, de Nova Iorque (celebrizado pelo filme Esqueceram de Mim), tinha, na plateia, os maiores nomes do PIB nacional e personalidades do mundo financeiro americano que possuem negociação com o Brasil.
Não faltaram banqueiros naquele salão, afinal, era um seminário promovido por um dos maiores grupos jornalísticos do Brasil e pelo seu jornal de economia, que funciona como bússola para investidores e possui a maior e bem remunerada equipe de jornalistas econômicos e especializados em finanças. Verdadeiros perdigueiros do mercado de investimentos.
A vida do jovem banqueiro mineiro foi outra a partir daquele dia. Ele conseguiu entrar para o primeiro time de empresários e banqueiros do Brasil e foi apresentado, internacionalmente, como um vitorioso, tudo isso chancelado pelo grupo GLOBO e a credibilidade de um dos maiores e mais sérios jornais de economia do planeta, o Valor Econômico.
Como principal investidor, coube ao Banco Master assinar o evento. O site do jornal traz as seguintes ordens de importância dos patrocinadores: “O Summit Valor Econômico - Brazil-USA é apresentado por Banco Master, tem o patrocínio máster de Gulf e JBS, patrocínio de Gerdau, JHSF, Cedae, Copel e AEGEA, além do apoio da cidade de São Paulo, governo de São Paulo, governo do Mato Grosso, governo do Pará, governo de Goiás e Invest.Rio. As companhias aéreas oficiais são Latam e Delta Airlines. A realização é do Valor Econômico.”
Naquele 15 de maio de 2024, Vorcaro quase não conseguia andar depois do evento. Eram dezenas de pessoas querendo trocar cartões de visita e fazer negócios, entre eles os maiores escritórios de advocacia dos Estados Unidos e do Brasil, todos eles querendo prestar serviços. O selo de qualidade que recebeu publicamente funcionou e as palavras de agradecimento de Frederic Kachar, presidente da Editora Globo e dos jornais O GLOBO e Valor Econômico, funcionaram. Estas cenas foram há apenas 20 meses, bem diferente da realidade atual de Vorcaro na prisão.
Naquele dia, em Nova Iorque, ele foi festivamente chamado ao púlpito e, antes da sua fala, o evento exibiu um vídeo com os parrudos números de sucesso do Banco Master, as altas pontuações das agências de análise de risco e até o CredCesta foi apresentado como um cartão com mais de 10 milhões de usuários. Um sucesso! Valeu cada centavo de dólar investido para apresentar o evento nova-iorquino do grupo.
Na abertura, e antes de chamar Daniel Vorcaro para a sua fala, Maria Fernanda Delmas, diretora de redação do Valor, destacou que o Summit celebrava os 200 anos de relações diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos e abria as comemorações dos 25 anos do jornal Valor Econômico, que aconteceu em maio de 2025. No final agradeceu aos patrocinadores.
Naquele mesmo dia 15 de maio de 2024, ocorreu o Jantar de Gala do Prêmio Personalidade do Ano, que homenageou outro mineiro, Alexandre Birman, da Arezzo. O evento aconteceu no The Glasshouse, em Nova Iorque, e contou com a presença de mais de 1.000 líderes das comunidades empresarial, financeira e diplomática internacional. Novamente Daniel Vorcaro foi muito assediado e cumprimentado pela sua participação no seminário do Valor Econômico. Estava deixando de ser coadjuvante dos anos anteriores e virando protagonista neste movimento empresário. O aval do jornal funcionou. O jantar de Gala tinha no seu Inner Circle Sponsors as mesas do Banco Master e as mesas dos Banco do Brasil, Bank Of American, BTG Pactual, J P Morgan, Banco Itaú, UBS, só para citar as instituições financeiras.
Ninguém imaginava que 18 meses depois ele estaria sendo tratado e preso ao tentar embarcar para Dubai e o seu banco liquidado pelo Banco Central.
O Brasil assiste agora uma queda de braço entre as organizações Globo e alguns ministros do Supremo Tribunal Federal. Especialmente entre colunistas e o próprio jornal O GLOBO com os ministros do STF Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. O vazamento do contrato do escritório de advocacia Barci de Moraes Sociedade de Advogados foi feito pelo jornal que nunca registrou que na mesma época, em 2024, tinha contratos com o Master. O patrocínio em Nova Iorque como apresentador do evento, segundo especialistas do setor de eventos e do mercado publicitário, não sairia por menos de R$ 10 milhões, ou seja, três meses do contrato da Barci de Moraes.
A questão não é a hipocrisia editorial do “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço” e nem ter uma relação comercial com uma instituição financeira - que durante um bom período foi o principal anunciante privado, além de manter na surdina esta relação, que envolve também o patrocínio pelo banco do Camarote da Quem/O Globo na Sapucaí, é não assumir a responsabilidade de ter dado um aval internacional a Vorcaro, colocando-o como protagonista de um evento empresarial no exterior, associando a marca do Valor Econômico e, por várias vezes de O Globo, ao Banco Master. Se em 2024 a marca do Valor Econômico e do Banco Master não tinham problema de estarem juntas, outros poderiam fazer o mesmo. Um escritório de advocacia poderia ter a instituição como clientes e outros veículos como anunciante. O aval dado em Nova Iorque permitiu ao Master ampliar outras aproximações, com escritórios de advocacia e outros parceiros que agora são censurados pelo O GLOBO até em editorial.
O Valor Econômico é uma bússola do mercado. A relação com uma instituição financeira é diferente de outros veículos de imprensa. Se estão juntos é porque os “perdigueiros” do jornal não identificaram nada de errado. Ninguém imagina que o jornal rasgue o seu manual de compliance. O que o Valor Econômico e o O GLOBO (nos seus camarotes) proporcionaram ao Master foi a percepção de uma parceria comercial que funcionou como um selo de garantia de normalidade, um verdadeiro aval para quem associa suas marcas juntas.
Para condenar Moraes e Toffoli com legitimidade, o jornal deveria fazer a “mea culpa” e revelar quanto recebeu durante anos do banco, afinal a origem controversa do caixa do Master irrigou a empresa jornalística em Nova Iorque, na Sapucaí e nas dúzias de páginas de publicidade. Exigir ética e transparência de ministros que nunca julgaram um único caso do banco, deve começar com um simples dever de casa. O silêncio, ou amnésia de O GLOBO, equivale ao silêncio das empresas de risco que avaliaram positivamente o banco, das empresas de auditoria que validaram o balanço e das corretoras, como XP e BTGPactual, que venderam bilhões de produtos do Master e foram comissionadas por isso. A pior situação é do Valor Econômico, que projetou o Daniel Vorcaro no cenário internacional, o colocou como protagonista em Nova Iorque e não percebeu que estava dando um aval público e contribuindo para a construção de um cenário que alavancou a imagem do negócio que explodiu meses depois. A preocupação maior é descobrir agora se o Master é um caso isolado ou sistema de fundos de investimentos virou um castelo de cartas.
Assista o vídeo da apresentação de Daniel Vorcaro no evento do Valor Econômico em Nova Iorque:
*Diretor de Redação do Correio da Manhã