Por: Cláudio Magnavita

Por que tanto receio do BC em abrir a caixa preta da liquidação do Master?

Sede do Banco Central, em Brasília | Foto: Rafael Lima

Quando ocorre um acidente aéreo, é necessário abrir e estudar a caixa preta (na verdade um equipamento de gravação de dados na cor laranja) que fornece informações relevantes até para evitar outros desastres.

A tentativa de abrir a caixa preta do Banco Master pelo Tribunal de Contas da União está causando um rebuliço envolvendo figuras da Faria Lima e do Banco Central.

O que deveria ser um processo sumário, guardado a sete chaves pelo Banco Central, está tendo desdobramentos imprevistos pelas autoridades monetárias, que se colocavam acima do dever de dar explicações aos seus atos.

O desfecho do Master está sendo pouco a pouco revelado para desespero daqueles que queriam liquidar o banco sem dar maiores explicações.

Ao determinar os depoimentos do dirigente do Banco Master , Daniel Vorcaro; do ex-presidente do BRB , Paulo Henrique Costa, e do diretor do Banco Central, Ailton de Aquino, o Ministro do STF, Dias Toffoli, conseguiu colocar luz em um castelo de cartas que estava sendo construído pelos autores da liquidação, para justificar a liquidação sumária, que incluiu até pedido de prisão.

Ao se contrapor à corrente de parte da mídia e do sistema financeiro, que queria deixar com página virada o fuzilamento do banco, o ministro Dias Toffoli foi corajoso e sofreu tentativa de alvejamento de várias frentes. Ele foi firme e seguiu em frente.

As oitivas ocorreram e trouxeram luz a um túnel tenebrosamente escuro e subterrâneo. Aliás, no Brasil, o limbo jurídico de não ouvir as partes envolvidas ou acusadas virou moda. É só olhar para o caso Marielle, na qual um ex-deputado federal, um conselheiro do Tribunal de Contas e um ex-chefe de polícia nunca foram ouvidos. O mesmo ocorreu com os acusados de "golpe de estado".

O básico para uma investigação é ouvir o contraditório, da mesma forma que é regra do bom jornalismo. O que ocorre, porém, é cristalizar a verdade parcial, naquilo que interessa aos investigadores e manter no limbo o direito do acusado se manifestar.

Com o pulso firme de Toffoli, ficou claro que Daniel Vorcaro não fugiu do Brasil. Ele comunicou a autoridade que o fiscalizava que sairia do Brasil para reunião com os investidores que assumiriam o banco. Isso foi feito e declarado pela defesa do banqueiro e confirmado pela oitiva. Ninguém foge avisando roteiro e data de viagem. Só este ponto derruba a espetacularização da prisão ocorrida em um terminal privado e com vídeos vazados para a mídia.

Outro ponto que Toffoli derrubou foi a do rombo de R$ 12 bilhões no BRB, quando foi apurado que foram repassados Precatórios em substituição aos créditos recusados. Faltavam apenas 16% dos valores que estavam sendo contratualmente repassados.

Neste cenário, é preciso relembrar a manchete do Correio da Manhã, de 19 de novembro passado, que registrou que os investimentos do Rioprevidência estavam sendo resgatados com a entrega de precatórios e que o contrato seria assinado no dia da intervenção.

Houve também a informação que o banqueiro havia realizado um aporte de recursos pessoais de R$ 6 bilhões semanas antes da intervenção.

Cabe agora ao TCU abrir a caixa preta do Banco Central e compreender o porquê de uma liquidação que desprezou as soluções colocadas na mesa e que estavam em curso.

Caberá também descobrir as razões pelas quais foram descartadas soluções anteriores, como a própria venda ao Banco Regional de Brasília.

É preciso compreender como o Banco Central agiu e foi tolerante por vários meses e resolveu sumariamente liquidar. A quem interessava a saída do Master do mercado? Quais ventos mudaram a posição da biruta do BC? Quais as alternativas que existiam além da medida radical? Como a XP induziu seus clientes a comprarem R$ 26 bilhões em CDBs do Master e o BTG R$ 6,9 bilhões dos mesmos papéis?

O BC sentiu o golpe e apresentou recurso ao próprio TCU, que esse tipo de inspeção precisava ser aprovada pelo colegiado da Corte de Contas, e não por um ministro individualmente.

O Master, durante um bom período, foi o pote no fim do arco-íris para as plataformas de investimento como a XP e agora virou o patinho feio do mercado.

A exemplo de um acidente aéreo, a leitura da caixa preta do Master/BC pode ser produtiva para o próprio mercado e não arranhar a credibilidade, isto é, se nada de errado for encontrado.

*Diretor de redação do Correio da Manhã