O recuo de Flávio Bolsonaro (PL) em relação a propostas de cortes de despesas anunciadas por assessores em entrevistas e em conversas no breu das tocas do mercado comprova que boa parte dos brasileiros defende um sistema particular — uma espécie de liberalismo estatizante, jabuticaba capaz de dar nó na cabeça de qualquer vencedor do Nobel de economia.
O senador tratou de não brigar com a realidade ao perceber a existência, na população, de uma defesa entusiasmada de teses de liberdade econômica, vista como caminho único para a prosperidade. Isso, desde que combinada com a permanência e, quiçá, ampliação da rede de proteção social.
Algo como um mix do liberalismo me-engana-que-eu-gosto de Pablo Marçal com o paternalismo estatal plantado por Getúlio Vargas e cultivado ao longo de décadas, principalmente durante os governos petistas.
Motociclistas que se veem como empreendedores são capazes de criticar o peso do Estado e dos impostos, mas sabem que, no caso de suas frequentes quedas, poderão contar com o SUS. E aí de quem falar em mexer no Farmácia Popular, no Bolsa Família, no Pé-de-Meia.
Posto Ipiranga imposto a Jair Bolsonaro para dar o grito de independência ou morte capaz de ensurdecer as margens plácidas do estatismo pátrio, Paulo Guedes foi obrigado a engolir doses cavalares de intervenção governamental da economia quando seu chefe — como Lula (PT) faz agora — recorreu ao orçamento federal para embalar programas que seriam capazes de garantir sua reeleição (que acabou não sendo obtida).
Para ser justo com motociclistas e com tantos outros jovens que, cansados da estratificação social brasileira, encontram no empreendedorismo e no sonho do negócio próprio a única saída viável para a possibilidade de romper com o ciclo de pobreza que marca suas famílias, geração após geração: essa combinação de liberalismo de fachada e de vida à sombra do Estado apenas reproduz a lógica e as práticas de elites brasileiras que sempre viveram às custas dos cofres públicos.
Representantes da elite que reclamam de políticas públicas como Bolsa Família e de Benefício de Prestação Continuada e que pregam mais e mais medidas restritivas para a previdência social fazem cara de paisagem diante dos incentivos fiscais federais, que devem chegar a R$ 900 bilhões em 2026 (a conta é do Unafisco Nacional, Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil).
O pacote inclui impostos não arrecadados com o Simples, com a Zona Franca de Manaus, com o agronegócio, dividendos pagos a empresários, descontos com consultas médicas e planos de saúde de quem tem grana para bancá-los. Na lista estão também isenções de pagamento ao INSS da contribuição patronal de entidades filantrópicas, algo que só aumenta o rombo do sistema de pagamento de aposentadorias e pensões.
Ao defenderem a esquisita e contraditória fusão entre a liberdade econômica indidividual amparada pela rede de proteção do Estado, uma grande parcela de brasileiros que vive no porão ou no térreo apenas reproduz o que aprendeu com o pessoal da cobertura. O problema é que a conta não fecha.
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