Orenascimento das chamadas canções de protesto foi um dos mais evidentes sinais de que, a partir de 2018, o país flertava com o abismo da ditadura. Haviam retomado seu sentido original músicas que, meio século antes, embalaram e consolaram os que não engoliam o autoritarismo.
E, aí, tome de "Apesar de você" (Chico Buarque), "Cálice" (Chico e Gilberto Gil), "O bêbado e a equilibrista" (João Bosco e Aldir Blanc), "Pra não dizer que não falei das flores" (Geraldo Vandré), "Nada será como antes" (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos), "Clube da Esquina nº 2" (Milton, Lô e Márcio Borges).
Seus versos voltaram a ser entoados como uma forma de resistência e toque de reunir. Era preciso cantar, pregar a confiança no futuro ("Amanhã vai ser outro dia"), remoer a dor da tortura ("Pai, afasta de mim este cálice/ De vinto tinto de sangue"; "E nuvens, lá no mata-borrão do céu/ Chupavam manchas torturadas/ Que sufoco").
Valia também estimular a luta ("Quem sabe faz a hora/ Não espera acontecer"), tornar presentes os desaparecidos ("Que notícias me dão dos amigos?/ Que notícias me dão de você?"), lembrar dos gases lacrimogêneos e ressaltar que sonhos não envelheciam.
Nas décadas de 1960 e 1970, os que se opunham ao regime podiam culpar os militares golpistas. A eleição de 2018 tornara tudo mais complexo, a lógica autoritária havia chegado ao poder pelo voto popular, fora opção da maioria dos eleitores.
O inimigo não era mais algo externo, não dava para dizer que a culpa era "deles" — o adversário estava no ônibus, no metrô, no trabalho, na igreja, nas escolas vigiadas, nas ruas, nos campos hi-tech, em construções intolerantes de paredes sólidas e inflexíveis.
Um Brasil não conhecia um outro Brasil, país capaz de usar a democracia para derrubá-la, que transpunha para a vida na Terra o princípio religioso da luta de um suposto bem contra o declarado mal, opção que, por seu caráter extremista, autorizava a destruição de opositores.
Na tentativa de entender o que acontecia e na busca de estímulo para uma nova jornada de lutas, o lado derrotado nas urnas recorreu a velhas canções que nunca haviam sido esquecidas, mas que pareciam gozar de merecido descanso depois de tantas batalhas — a ameaça de repetição da tragédia que as motivara soava como farsa. Ouvi-las ajudou nos momentos de desespero.
Escrita por Chico Buarque para prantear e expor a tortura e o assassinato, em 1971, de Stuart Angel Jones, filho da estilista Zuzu Angel, "Angélica" serviria de réquiem para os 700 mil brasileiros mortos na pandemia, parte deles assassinada pelo descaso, pela irresponsabilidade e pelo negacionismo: "Quem é essa mulher/ Que canta como dobra um sino?/ Queria cantar por meu menino/ Que ele já não pode mais cantar".
Nascido — como Chico, Gil e Caetano Veloso — nos anos 1940, Belchior expressava uma rebeldia diferente daquela empunhada pela geração que encarnou o conceito de MPB. Parecia mais jovem, chegou a ironizar o autor de "Alegria, alegria", classificado de "antigo compositor baiano".
Seu protesto caminhava por vias mais tortas, não queria contar o que aprendera nos discos; era preciso, sempre, rejuvenescer. A exemplo de Lupicínio Rodrigues, alertava, do seu jeito, que não se deve ir ao inferno a procura de luz. Belchior frisava os perigos que havia nas esquinas, o sinal que se fechava para os jovens a necessidade de afeto. Frisava que braços, lábios e voz haviam sido feitos para abraçar o irmão e beijar a menina, na rua.
Não será razoável se, mais uma vez, músicas feitas para embalar o combate à ditadura precisem recuperar uma espécie de função original. Melhor que permaneçam como testemunhos de uma época e como exemplos de beleza e de criatividade, não é bom buscar futuro no pretérito. Como ensina Belchior: "No presente, a mente, o corpo é diferente/ E o passado é uma roupa que não nos serve mais".
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