O caso relacionado a Nossa Senhora Aparecida vai além de promessa — que não foi feita por Flávio Bolsonaro — de cassação do título de Padroeira do Brasil, reflete a preocupação de católicos com o avanço da chamada Teologia do Domínio.
Ao afirmar em agosto que, caso eleito, decretaria a entrega do país ao "Senhor Jesus", o candidato do PL acionou o gatilho a adoção oficial de uma leitura fundamentalista da Bíblia. Associada a outros fatos, a declaração tornou plausível a fake news sobre a santa.
Baseada em uma leitura enviesada do "Gênesis", a Teologia do Domínio prega uma dominação absoluta da Terra pelos preceitos da fé, conquista que caberia a evangélicos ultraconservadores, que se consideram os únicos verdadeiros cristãos.
O processo inclui a conquista de "Sete Montes": família, religião, educação, governo, mídia, economia e artes/entretenimento. O cientista político Ramon de Oliveira Gomes já identificou elementos da tal teologia em discursos de Michelle Bolsonaro.
A lógida de exclusão é explícita: ao falar do mando que seria concedido ao "Senhor Jesus", Flávio discriminou os que não têm fé e os que professam outras religiões ou derivações do cristianismo, como os católicos.
Sua fala foi na mesma linha da Constituição iraniana, que estabelece a soberania exclusiva de Deus, seu direito de legislar e a necessidade de submissão aos seus mandamentos. Na lógica teocrática do candidato do PL, ateus, mulçumanos, judeus, umbandistas, candomblecistas, católicos — todos os outros — morariam de favor no território nacional.
Protestantes foram muito perseguidos pela Igreja Católica, mas, nas últimas décadas, grupos pentecostais e neopentecostais adotaram uma postura agressiva no mercado da fé: não bastava enaltecer o próprio produto, era preciso atacar e, literalmente, demonizar a concorrência.
As tradicionalmente perseguidas religiões de matriz africana foram as vítimas mais visíveis e óbvias, mas o catolicismo também ficou na mira. Para muitos pastores, manifestações de fé que não correspondiam à sua visão representavam, mais do que uma falsidade, uma glorificação do capeta — este passou a ser identificado em cada terreiro, em cada imagem de santo ou de orixá. Hoje, até traficantes que dizem cristãos proíbem cultos católicos em seus domínios.
Responsáveis pela produção e disseminação de fake news em ritmo industrial, bolsonaristas sabem que notícias fraudulentas precisam de um público desejoso de consumi-las e de alguma plausibilidade — a mentira sobre "kit gay" só prosperou por pegar carona oportunista na pregação da esquerda por aceitação da diversidade sexual.
A história da cassação de Nossa Senhora vingou por ter encontrado terreno fértil na intolerância adubada por muitos anos. Não é fácil minimizar os danos: ontem, na ânsia de diminuir estragos, Flávio cometeu um pecado aos olhos evangélicos mais radicais ao levantar uma pequena representação de Aparecida. Alguns devem ter visto até chifres e trindente naquela fofa bonequinha de crochê.
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