O lançamento simultâneo dos primeiros volumes de biografias de Carlos Lacerda e Leonel Brizola permite reiniciar o tenso e necessário diálogo entre esses dois grandes políticos, interrompido pela ditadura implantada em 1964.
Por uma dessas ironias — no, caso, também castigo — da história, Lacerda, golpista convicto e juramentado, colaborou para a derrubada de João Goulart para a interrupção de sua vida política. A primeira parte de sua turbulenta atuação é contada em "Lacerda: Coração de tempestade", de Mário Magalhães.
Um dos grandes adversários do carioca, herdeiro do que costumava classificar de fio da história trançado por Getúlio Vargas, o gaúcho é retratado em "Brizola: Lobisomem contra o império", de Karla Monteiro.
Ambos editados pela Companhia das Letras, os livros tratam de duas lideranças de atuação radical, que despertavam amores e ódios, que gravitaram em torno do eixo fincado por Vargas. Lacerda governaria a Guanabara; Brizola, o Rio Grande do Sul e, por duas vezes, o Rio de Janeiro.
Um deles foi o pivô da crise que levaria o ex-presidente ao suicídio; o outro, o homem que tentou atualizar o legado do conterrâneo que liderara uma ditadura afinada com propostas autoritárias de direita e que, anos depois, assumira posições mais compatíveis com o lado oposto do espectro político.
A chegada dos livros provoca um saudável debate em torno da república brasileira, da democracia, do papel dos militares. Permite também reflexões sobre intervenções que, sempre sob pretexto oficial de colocar ordem na casa, bagunçam de vez o processo democrático, feito de inevitáveis e necessários embates entre diferentes visões de mundo.
Ao interromperem o processo histórico, militares — associados a lideranças empresariais e civis, como Lacerda —, impediram que a própria sociedade definisse seus caminhos, que resolvesse suas diferenças.
Obrigado a partir para o exílio, Brizola voltaria 15 anos depois, ainda a tempo de retomar alguma protagonismo. Não conseguiria, porém, ser eleito presidente, acabaria derrotado em 1989 e 1994.
O destino seria ainda mais cruel com a carreira de Lacerda. O cancelamento da eleição presidencial pela ditadura jogou o líder da UDN para a oposição, ele chegaria a ser preso e teria seus direitos políticos cassados.
Em uma de suas típicas reviravoltas, articulou a Frente Ampla com os ex-presidentes Juscelino Kubitschek e João Goulart, que tanto combatera. Assim como estes ex-adversários, morreria antes de conseguir um retorno à política institucional.
Nas capas dos livros, ambas criadas pelo designer Alceu Chiesorin Nunes, Lacerda e Brizola discursam e têm o olhar voltado para o alto. É interessante colocar os dois volumes lado a lado, disposição permite forjar uma conversa entre os dois grandes oradores.
Uma discussão enfática, inteligente, dura, necessária e enriquecedora. Um debate importante sobre os rumos do país e serve de alerta para a necessidade de impedir qualquer outra tentativa golpista.
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