SEGUNDA NO 2

SEGUNDA NO 2: O streaming e os restaurantes a quilo

A ordem das faixas procurava contar uma história, algo que, muito provavelmente, tinha raízes na ópera, na ideia de uma sequência que ia da abertura ao grande final.

SEGUNDA NO 2: O streaming e os restaurantes a quilo
Milton Nascimento: cantor e compositor lançou LPs e CDs históricos Crédito: Reprodução

O, na prática, fim dos CDs, fez com que muitos ouvintes habituais de músicas incorporassem a lógica de clientes de restaurantes a quilo. Antes, havia uma tendência de se respeitar a ordem das canções dispostas pelos artistas e seus produtores em cada disco. Agora, tudo varia ao gosto do freguês.

Os álbuns eram concebidos como obras em que havia começo, meio e fim. A ordem das faixas procurava contar uma história, algo que, muito provavelmente, tinha raízes na ópera, na ideia de uma sequência que ia da abertura ao grande final.

A lógica dos LPs e CDs remetia também às refeições menos apressadas, um menu que incluía entrada, prato principal e sobremesa. Um ritual que vale também para situações menos formais, como o churrasco dominical — primeiro, a linguiça; depois, o coração de galinha e, em seguida, a picanha ou fraldinha. Os mais famintos ainda fazem questão da bonus track em forma de sobremesa.

A facilidade que nos é proporcionada pelos serviços de streaming dinamitou esse processo construído ao longo de décadas e nos jogou diante de balcões cheios de comida, onde podemos, sem qualquer constrangimento ou rigor, misturar sushi com salada, feijão, arroz, macarrão, fritas, bife, filezinho de frango.

Muitos artistas mantêm esse compromisso com a construção de uma unidade entre as canções que apresentam nos álbuns, mas sabem que muitas serão consumidas como canapés em um coquetel. Sabedores disso, outros cantores e cantoras preferem lançar EPs ou, mesmo, uma faixa por vez.

A mudança de hábitos tem a ver com a velocidade com que navegamos na internet, com que pulamos do Trump para a ginástica rítmica, da taxa de juros para a rodada do Brasileirão, do Instagram para o Facebook, e por aí vai, em uma sequência infinita de cliques.

Ouvir um CD inteiro exige alguma imersão, um ligar de pontos na busca de canções que possam nos encantar, surpreender e, mesmo, reiterar características de um artista. Em 1984, Chico Buarque lançou um LP que começava com “Pelas tabelas”, crônica sobre manifestações pelas Diretas Já.

O disco terminava com o sambão “Vai passar”, crítica às tenebrosas transações protegidas pela ditadura que conseguira impedir o direito de a população voltar a eleger seu presidente.

“Minas” e “Geraes”, de Milton Nacimento, são como suítes, tamanho o encadeamento das canções. O também clássico “A arte negra de Wilson Moreira e Nei Lopes” (1980) abre com uma colagem que remete à nostalgia e termina jogando para o futuro com o manifesto “Ao povo em forma de arte”, samba de enredo da Quilombo.

Ainda mais antigo, o LP de João Gilberto que, em 1959, marcou de vez o início da Bossa Nova, carrega uma proposital ironia: a faixa de abertura é “Chega de saudade”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, que dá título ao trabalho. Em seguida, vem uma leva de canções de outros autores bossanovistas, como Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli.

No lado B estão “Desafinado”, de Tom e Newton Mendonça, e uma fileira de compositores já clássicos, como Dorival Caymmi e Ary Barroso — a revolução estética de João não descartava o passado, o transformava.

Sem preconceito, sem mania de passado: não dá para brigar com os fatos, com a mudança dos tempos, mas vale pensar um pouco sobre essa fragmentação de narrativas, no processo que, na prática, isola causas de consequências, que foca ano imediato, no mais chamativo, no sanduíche engolido com pressa.