Fernando Molica

O piscinão do poder

A imagem vai além do que vemos. Revela uma breguice exibicionista comparável com as festas de Daniel Vorcaro, ilustra um poder que, no Brasil, vai além de governos.

O piscinão do poder
Confraternização na piscina do rancho do advogado Willer Tomaz Crédito: Reprodução/Polícia Federal/ revista Piauí

Poucas imagens são tão representativas do Brasil quanto a que mostra 14 marmanjos — entre eles, deputados e senadores — dentro e em torno da piscina do Rancho Tomaz, propriedade do advogado Willer Tomaz, em Planaltina, a 80 quilômetros de Brasília.

A foto, que teria sido feita em 2023, reúne pelo menos dois suspeitos de participação nas fraudes do INSS (Tomaz e o senador Weverton Rocha (PDT-MA). Não documenta qualquer irregularidade, não é ilegal mergulhar em piscinas de amigos.Mas há imagens que dizem mais do que mostram. Tanto que a foto, extraída do celular de Weverton, virou notícia, repercutiu ao ser publicada pela revista Piauí.

O anfitrião posou no centro do grupo que está na piscina. Tem cinco homens à sua direita e cinco à esquerda, entre eles, os deputados Elmar Nascimento (do União Brasil), Alexandre Ramagem (do PL, que teria o mandato cassado depois de condenado por participação na trama golpista), Juscelino Filho (PSDB, então no União e ministro das Comunicações) e os senadores Weverton e Ângelo Coronel (Republicanos, na época no PSD).

Tomaz está com o braço direito levantado e o punho cerrado, uma demonstração de poder. Atrás dele anfitrião, fora da piscina, há três outros parlamentares — o senador Efraim Filho (União), o então presidente da Câmara, Arthur Lira (PP) e o deputado Paulo Azi (União). Embora de bermudas e sorridentes, têm uma atitude mais discreta, estão secos, sem bebidas nas mãos; demonstram o exercício de um outro tipo de poder, mais comedido.

Dos parlamentares, quatro eram do União; os outros, do PDT, PL, PSD e PP. A variedade das siglas impede que a foto seja batizada com tentador nome de "Piscinão do Centrão". Mas a lógica deste grupo de limites indefinidos é inclusiva, é só chegar e mergulhar.

Não há nada que indique que aqueles homens estivessem reunidos em torno de algo irregular. Mas, vale insistir, a imagem vai além do que vemos. Revela uma breguice exibicionista comparável às festas de Daniel Vorcaro, ilustra um poder que vai além de governos: remete à série sobre mordomias publicada pelo jornal O Estado de S.Paulo em 1976, no auge da ditadura. Reportagens inspiradas em confortos desfrutados por altos funcionários da União Soviética.

A imagem do piscinão serviria também para ilustrar a falta de limites entre o público e o privado e a confusão institucional entre os poderes: outro dia, Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, promoveu, em sua casa, encontro de pacificação entre o presidente Lula (PT) e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União). Um ministro do STF, que tem poderes para julgar os dois convivas, não poderia intermediar esse tipo de confraternização.

Os convidados para o mergulho na piscina do advogado integrariam um chamado "Grupo seleto", denominação que até faz sentido — não necessariamente pelos méritos dos banhistas, mas pela exclusão dos que dele não fazem parte: nós, os afogados.