Fernando Molica

Flávio não pegou o Centrão

A expansão das emendas parlamentares, principalmente as de execução compulsória, deu a cada político da Câmara ou do Senado o direito de gritar "Dependência ou morte" para o presidente da República.

Flávio não pegou o Centrão
Deputado Alfredo Gaspar, do PL, foi escolhido para ser candidato a vice na chapa do partido Crédito: Kayo Magalhães / Câmara dos Deputados

Com intenção bem diversa da anunciada em 2018 pelo general Augusto Heleno, o candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, também tentou pegar o Centrão — mas não conseguiu fisgar um partido sequer do grupo para sua chapa presidencial.

O senador fluminense não seduziu agremiações que, diferentemente do sugerido pelo militar, é que pegaram e se apossaram do governo de seu pai, Jair Bolsonaro. Como no samba parodiado por Heleno — que cumpre pena por tentativa de golpe de Estado —, não ficou um, mermão.

O isolamento de Flávio não indica apenas um descrédito em relação à sua candidatura; revela também que a mais permanente, mutável, adaptável e original criatura do sistema político brasileiro — o Centrão — alçou voo próprio e não precisa colar nesse ou naquele pretendente ao Planalto.

Os partidos que fazem parte do grupo sabem que estarão no futuro governo, independentemente do resultado da eleição; têm certeza de que serão cortejados pelo futuro presidente, e não apenas na formação do governo. Também receberão doces propostas a cada votação importante no Congresso.

A expansão das emendas parlamentares deu a cada político da Câmara ou do Senado o direito de gritar "Dependência ou morte" para o presidente da República. Eles embalam ou derrubam o antigo berço esplêndido do Planalto.

No caso do clã Bolsonaro há, como agravante, a centralização das decisões nas mãos do ex-presidente. Um poder que, lastreado em sua popularidade e na rejeição ao petismo, chegou ao ponto de fazer com que Jair preferisse a eventual derrota de alguém da família do que a vitória de outro candidato da direita.

Ao descartar a candidatura do governador Tarcísio de Freitas à Presidência, o chefe da família reforçou o desejo de criar uma dinastia; o Centrão reiterou que, fiel ao seu princípio roubado da oração de São Francisco, não dá sem receber.

A ausência dos amigos de fé, irmãos camaradas de PP, Republicanos e União Brasil, porém, não inviabiliza a candidatura de Flávio. Mesmo que houvesse um apoio formal desses partidos seria impossível conter traições de candidatos a cargos legislativos ou a governos estaduais em locais onde Lula for mais popular, como no Nordeste.

O tempo de propaganda na TV e no rádio — que daria ao senador minutos adicionais com a adesão do Centrão — ainda é relevante, mas, como Jair mostrou em 2018, deixou de ser tão decisivo em tempos de redes sociais. Além do mais, em um eventual segundo turno, o tempo é dividido igualmente entre os finalistas.

O problema de Flávio é outro e está relacionado com a proposta política excludente do seu clã: vacinado, o Centrão demonstrou que rejeita cabresto e que não vacila na hora de largar a mão de quem quer que seja.