Terminar de ler "Angústia", de Graciliano Ramos, no meio da Copa é mais ou menos como autoaplicar-se a rasteira que ele, em 1921, de maneira irônica, sugeriu ser adotada como esporte nacional no lugar do então iniciante futebol — este não passaria de um "entusiasmo de fogo de palha".
O jogo de Graciliano é pesado, disputado no campo enlameado e esburacado do adversário, e apitado por um juiz que sequer finge ter algum tipo de imparcialidade. Não há otimismo e pachequismo capazes de resistir à narração da tragédia particular de Luís da Silva, personagem-narrador que renova impasses de Paulo Honório, de "S. Bernardo", e antecipa a opressão que Fabiano, de "Vidas secas", identificava no soldado amarelo. No limite, incorpora o próprio Graciliano que, em "Memórias do cárcere", narra o absurdo de sua prisão.
Em "Angústia", lançado em 1936, quando o autor estava preso, não há espaço aparente para qualquer tipo de esperança fácil, de virada milagrosa de jogo. É como se Luís mirasse aquele que identifica como antagonista — o rico e sedutor Julião Tavares — da mesma forma que integrantes da seleção brasileira olhassem, no intervalo do jogo de 2014 contra a Alemanha, para os adversários que lhes haviam aplicado um humilhante e irrecorrível cinco a zero. Pior, um segundo tempo ainda seria jogado, o que aumentaria ainda mais a dor coletiva.
Mas, como em outros livros do alagoano de Quebrangulo, o que importa é menos a tragédia anunciada do destino e, sim, o processo que leva personagens ensandecidos ao seu encontro. As descrevê-los, Graciliano ressalta seus limites, suas incapacidades. Expõe uma luta que remete ao próprio desafio de sobreviver em um mundo quase sempre hostil.
Os outros — sempre eles — são mais endinheirados, inteligentes, elegantes, poderosos e fortes, oprimem só pelo fato de existirem. Um domínio que, tão intenso, é capaz de gerar uma forma ainda mais grave de violência, como a de Paulo Honório em relação à mulher, Madalena. Ela seria encarada como ameaça por representar uma alternativa à brutalidade.
Não há espaço para amor e lirismo no mundo delirante de Luís da Silva, que trata de reforçar as dificuldades que a vida lhe impõe, é como se houvesse soldados amarelos por todos os lados: vê-se pressionado por sua casa ("inconveniente, cheia de barulhos, parece mal-assombrada"), pela mulher por quem se apaixona, pelo trabalho, pelos amigos. Ele não tem dinheiro, não tem jeito, não tem paciência; na rua, anda com a cabeça baixa, até para não encarar seus credores. Não suporta nem mesmo o que escreve: "Nunca estudei, sou um ignorante, e julgo que os meus escritos não prestam".
Ao apontar para derrotas implacáveis que se avizinham, o autor injeta humanidade nos Silva cujas estrelas não brilham, que ouvem que governo é governo, que se veem incapazes de adquirir um enxoval básico para o casamento, que são espancados, que se sentem incapazes de compreender o que não se manifesta pela violência.
Ao descrever a crueza, Graciliano abre um improvável espaço para a esperança, para a educação pela pedra; exalta a flor capaz de furar o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio e o direito de, como a cadela Baleia, sonhar com um céu de preás, gordos e enormes.
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