Correio da Manhã
Fernando Molica

Roubo: nem regra, nem exceção

Uma parte daqueles que elegemos vê em seus mandatos uma espécie de passe livre para a obtenção de vantagens pessoais, estão lá para isso. Outros não chegam a priorizar a roubalheira, mas não dispensam um faz-me rir.

Roubo: nem regra, nem exceção
Líder do governo no Senado, Jacques Wagner é suspeito de receber vantagens do Master Crédito: Carlos Moura / Agência Senado

A entrada do líder do governo no Senado, Jacques Wagner (PT), no rol formal de investigados por suspeita de participação no mega esquema do Banco Master reforça que a corrupção não chega a ser uma regra na política brasileira, mas também não deve ser considerada uma exceção.

Como sempre, é preciso aguardar mais investigações e provas, não generalizar, não partir para a lógica de que todos os políticos e partidos são iguais, que ninguém presta, que todo mundo é safado. Há diferenças importantes entre suspeitos, mas é inegável que a cultura do malfeito passou a fazer parte da estrutura da nossa democracia.

Uma parte daqueles que elegemos vê em seus mandatos uma espécie de passe livre para a obtenção de vantagens pessoais, estão lá para isso. Outros não chegam a priorizar a roubalheira, mas não dispensam um faz-me rir, uma, digamos, ajuda para a campanha eleitoral.

O processo de corrupção é facilitado pela lógica institucional brasileira, protagonizada, na maioria dos casos, por partidos e políticos que, em público, apresentam-se como representantes de interesses genéricos, palavras e expressões feitas mais para esconder do que para revelar — e tome de defesa de supostos interesses da comunidade, das famílias, da pátria, de Deus.

Políticos que tanto repetem esses chavões sabem que as brigas são outras, têm a ver com uma disputa de interesses — alguns legítimos, outros nem tanto —, de projetos que, de um jeito ou de outro, envolvem recursos públicos.

São discussões que deveriam ser mediadas por um viés ideológico: a esquerda, de um modo geral, defende recursos para escolas públicas; setores de direita radicalm adeptos de teses liberais preferem, como tantas vezes verbalizou Paulo Guedes, o fornecimento de vouchers para estudantes se matricularem na rede privada.

As opções podem e devem ser discutidas. O problema é quando a conversa se dá não por diferentes visões de mundo, mas por jogadas ligadas ao bolso de gestores ou parlamentares A inexistência de compromissos mínimos dos partidos estimula a formação de blocos do eu-sozinho. E aí, cada um um defende seu próprio interesse; não raras vezes, o de terceiros. O PSD teve ministros nos governos Dilma Rousseff, Michel Temer, Jair Bolsonaro e Lula 3 — e isso é visto como normal.

Não existe sistema político imune à corrupção, o exercício de qualquer poder atrai interesses e ofertas de cooptação. Mas a exigência de um ideário mínimo ajudaria a prevenir alguns absurdos ou, pelo menos, demandaria um mínimo de compostura. O negócio por aqui ficou tão escandaloso que a expressão "fazer política" passou a ser quase sinônimo da oferta de vantagens em troca de votos no Congresso.

A operação contra o ex-governador baiano, líder do governo do Senado, indica que a PF, a Procuradoria-Geral da República e o Supremo Tribunal Federal não têm protegido alvos nos poderes Legislativo e Executivo, mas ressalta também uma aparente passividade em relação ao Judiciário. As suspeitas em relação aos ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes são muito relevantes para que sejam ignoradas.