Alguns jogadores da seleção brasileira são como aqueles agregados — genros, cunhados — que surgem, aparentemente do nada, em uma festa de família.
É como descobrir que o grandalhão grudado no cooler de cerveja é casado com uma tia e especialista em musgos de tundras alpinas; que o baixinho míope mexicano plantado diante do bar de caipirinhas namora sua sobrinha e é doutor em língua cuitlateca.
Aquele louro troncudo, que fica o tempo todo de chapéu e não sai de perto da churrasqueira, é filho caçula de um tio, saiu de casa ainda adolescente, mexe com uns negócios misteriosos numa área de fronteira que vai do sul do Paraguai ao norte da Bolívia — é melhor não puxar assunto com ele sobre assuntos como Polícia Federal, Faria Lima e Banco Master.
Mas todos são da família, assim como o Ibañez e o Igor Thiago, primos a quem fui apresentado nos últimos dias. Nada contra a chegada de novos parentes ou à convocação de jogadores que pouco atuaram no Brasil, que foram muito jovens para o estrangeiro.
Alguns deles, que jogam em clubes ingleses ou espanhóis, continuam a fazer parte da rotina de muitos brasileiros que os veem pela TV. Outros são mais conhecidos pelas caras expostas no álbum de figurinhas da Copa, fazem carreira em países fora do circuito Elizabeth Arden do futebol, como Rússia e Arábia Saudita. Eles, claro, têm todo o direito de exercerem sua profissão.
A globalização e os lucros gerados pelo futebol geraram meia dúzia de grandes e quase imbatíveis clubes e modificam o conceito de seleções nacionais. Estas, aos poucos, vão deixando de expressar características do futebol de seus respectivos países.
Camisas que antes representavam um conjunto de manifestações culturais — o drible brasileiro, o toque de bola argentino, o chuveirinho inglês, a retranca italiana, a organização alemã, a alegria camaronesa — vão sendo transformando em embalagens de produtos que usam a mesma fórmula.
Nesta Copa, 25 dos 26 jogadores de Curaçao nasceram nos Países Baixos; 19 dos marroquinos também viram a luz pela primeira vez longe do país que representam.
Não será surpresa caso, em um futuro próximo, camisas de seleções deixem, de vez, de traduzir um jeito de jogar bola em partes delimitadas do planeta. Nascidos como resultado da união de vizinhos ou de categorias profissionais, muitos clubes, hoje, não passam de marcas internacionais.
A criação de um mercado comum de jogadores faz com que estes sejam, desde a base, treinados para atender expectativas do negócio. Daí, tanto faz que tenham nascido ou crescido aqui ou lá longe; de um jeito ou de outro, acabarão incorporados à família que, assim, torna-se mais diversa e ampla.
A história mostra o risco representado pela exacerbação do nacionalismo, mas talvez ainda demore um pouco para nos acostumarmos que o determinismo geográfico e cultural que definia a formação de seleções passe a dar lugar a uma lógica apenas mercadológica. Enfim, bola pra frente.
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