Ao afirmar que o agro "carrega o Brasil nas costas", a senadora Tereza Cristina (PP-MS) omitiu que todos nós, brasileiros, ajudamos a aliviar o peso de um setor muito subsidiado. Há um apoio recíproco, que a ex-ministra da Agricultura e produtora rural não devia ter deixado de citar ao defender um bilionário pacote de renegociação de dívidas da atividade.
Segundo o Ministério da Fazenda, as isenções fiscais que beneficiam o agro custam R$ 158 bilhões por ano — valor dos impostos federais que os empresários deixam de pagar e que é compensado pela grana de cada cidadão. Os juros pagos pela atividade são altos, mas bem menores que os cobrados de outros setores. A eficiência do agro e sua grande importância na nossa balança comercial não podem esconder que seu bom desempenho é também fruto de políticas públicas, parte delas obtidas graças ao lobby no Congresso.
Não se trata de se desvalorizar a atividade, seria absurdo não reconhecer um setor que, no ano passado, foi responsável por 48,5% das exportações brasileiras. Mas esta constatação não elimina a necessidade de se evitar a criação e profusão de mitos e nem privatizar todos os méritos relacionados aos grandes produtores rurais.
Não é correto, por exemplo, dizer que a agricultura brasileira alimenta o mundo, já que boa parte da produção exportada é de soja e milho, usados para fabricação de rações animais. A produção de alimentos é de responsabilidade, principalmente, da agricultura familiar.
Seria absurdo também negar que, apesar de todos os seus ganhos, o setor também enfrenta dificuldades. Os juros altos e a queda no preço internacional de produtos agrícolas contribuíram para que, em 2025, houvesse, em relação a 2024, um aumento de 56,4% dos pedidos de recuperação judicial de empresas do setor.
A inadimplência do agro também cresceu e diminuiu o lucro do Banco do Brasil. Setores do governo atribuem pelo menos parte do não pagamento de dívidas à perspectiva de aprovação do pacote de benefícios no Congresso, mas o fato é que, independentemente disso, a quitação caiu.
Facilitar a vida de agricultores prejudicados por tragédias como as enchentes no Rio Grande do Sul é importante; é uma forma de a sociedade demonstrar solidariedade efetiva e necessária. A recuperação desses produtores é também fundamental para o país.
Mas não dá para, no vácuo de uma medida necessária, incluir benesses que vão repercutir no bolso de todos nós. Apesar de toda a sua pujança, o agronegócio, como qualquer atividade empresarial, inclui riscos.
Dados oficiais comprovam que, apesar dos problemas, o setor não passa por uma crise. Segundo o IBGE, em 2025 o PIB da agropecuária registrou um crescimento de 11,7% em relação ao ano anterior, houve aumento da produtividade e da produção: a de milho avançou 23,6%; a da soja, 14,6%. As exportações do setor cresceram 3%.
Os números mostram que uma ajuda genérica é desnecessária e jogaria nas costas de todos os brasileiros, um novo subsídio a um setor tão beneficiado pelo esforço conjunto da sociedade.
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