Pressionado pela repercussão de suas conversas com Daniel Vorcaro, Flávio Bolsonaro se viu obrigado a deixar de lado o personagem que tentou construir, o de Bolsonaro que toma vacina — um viés de moderação incompatível com um movimento político que tem no radicalismo a sua razão de existir.
A pesquisa Quaest confirmou a mudança: em abril e maio, 39% dos entrevistados disseram que ele era mais moderado que a própria família; em junho, o percentual caiu para 33%. Metade dos entrevistados avalia que, neste quesito, ele se iguala ao pai e aos irmãos.
Movimento inverso ocorreu com o presidente Lula. Em maio, 45% negavam que ele fosse mais moderado que o PT. Agora, o percentual caiu para 43%, o que revela uma tendência.
Preocupado em criar fatos que diminuíssem o impacto das relações perigosas com o ex-dono do Master, Flávio atacou pela direita e jogou para a própria torcida: propôs que os Estados Unidos carimbassem o rótulo de terrorista em organizações criminosas brasileiras, falou em luta do bem contra o mal na Marcha para Jesus, verbalizou a existência de uma "guerra espiritual", disse que Lula parece ser chefe do PCC. No Congresso, o PL reabilita pautas como a da diminuição da maioridade penal.
Os exageros retóricos serviram para inflamar e tentar manter os eleitores do credo bolsonarista, mas, ao mesmo tempo, segundo a Quaest, contribuíram para afastar o pré-candidato dos nem-nem, aqueles que se dizem independentes e que decidirão a eleição. Os dados da pesquisa mostram que, neste grupo, Flávio caiu e Lula subiu.
Em 2018, Jair Bolsonaro mandou às favas o que se costuma esperar de um candidato presidencial e radicalizou ainda mais seu discurso no segundo turno. Percebeu que, em um país afundado em uma crise econômica e embalado pelos ventos da Lava Jato, o melhor era pisar no acelerador.
No governo, o chefe do clã manteve a mesma postura, a única que consegue exibir. Isto, mesmo quando a pandemia exigia um comportamento minimamente equilibrado e compatível com a necessidade de priorizar vidas no lugar de posturas ideológicas. Jair dobrou a aposta, e perdeu em 2022.
Flávio tentou largar a turma do fundão e se sentar mais à frente na sala de aula. Mas a roupa nova acabou rasgada logo no primeiro embate e ele se viu obrigado a procurar os velhos amigos, a falar alto, a jogar bolinhas de papel nos outros coleguinhas.
O problema, para ele, é que, apesar da polarização que se mantém, o Brasil de 2026 não é o de 2018. Boa parte da população continua a rejeitar Lula e o petismo, mas isso não parece ser suficiente para que todo esse contingente se jogue nos braços de alguém cuja principal qualidade é contra o presidente.
Ao inviabilizar a candidatura presidencial do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e ao bancar a de seu primogênito, Jair Bolsonaro criou uma armadilha para a direita, a condenou a um radicalismo. Pelo jeito, também traçou limites para Flávio — como se dizia antigamente, a vacina, nele, não pegou.
Menu