Correio da Manhã
Fernando Molica

Tarcísio, Flávio e Allan Kardec

Uma dessas misteriosas conexões espirituais uniu uma notícia de crime feita por um petista de Sapucaia do Sul (RS), o MP, a polícia qua atua sob a autoridade do governador Tarcísio de Freitas, a prefeitura paulistana e o filme sobre Jair Bolsonaro.

Tarcísio, Flávio e Allan Kardec
Allan Kardec e as coincidências que dizia não existirem Crédito: Reprodução

A operação da Polícia Civil de São Paulo contra a produtora do filme sobre Jair Bolsonaro faz lembrar uma frase e que era pichada em muros cariocas: "Coincidências não existem, leia Kardec".

A IA de plantão no Google diz que, para Allan Kardec o criador — ou codificador — do espiritismo, coincidências não passam de manifestações da "sincronicidade", eventos significativos seriam resultado de "conexões entre os espíritos e o planejamento de causas e efeitos".

Deve ter sido uma dessas conexões que uniu uma notícia de crime feita por um petista de Sapucaia do Sul (RS), o Ministério Público estadual, a polícia qua atua sob a autoridade do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), a prefeitura paulistana e o filme sobre Jair Bolsonaro.

Semana passada, Tarcísio, barrado pelo ex-presidente em sua postulação ao Planalto, disse que o pré-candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL), ainda tinha "muitas questões" para explicar sobre a sua relação com Daniel Vorcaro. Este, por coincidência (ou sincronicidade), o empresário que, segundo o clã Bolsonaro, de maneira sigilosa e ainda não explicada, financiou "Dark Horse" (os investigadores não descartam que dinheiro da prefeitura tenha sido desviado para o filme).

A operação da polícia paulista ocorreu três dias depois de Gilberto Kassab, presidente-dono do PSD, afirmar que pode se indicar para ocupar a vice na chapa presidencial de Ronaldo Caiado, candidato que ele escolheu. Kassab, até outro dia, era secretário de Governo e Relações Institucionais do Estado de São Paulo. As conexões e o planejamento de causas e efeitos indicam alguma concertação entre os espíritos que movem as cartas sobre a mesa ou tábua de Ouija usada pela oposição.

As cartas psicografadas que transmitem comunicados de grandes espíritos da política ainda não explicaram o que poderia levar a polícia de Tarcísio conduzir com estardalhaço uma operação que investiga supostas irregularidades na prefeitura administrada por um grande aliado, Ricardo Nunes (MDB), que terá um papel decisivo na tentativa de reeleição do governador.

Em nota, a prefeitura disse colaborar com as investigações, mas esse tipo de afirmação virou rotina entre nós. O importante é saber se esta colaboração será, de alguma forma, premiada por Tarcísio ou se não passa de uma mera justificativa.

A doutrina espírita admite a existência dos chamados espíritos brincalhões ou trasgos. Segundo a "Kardecpedia", são "mais traquinas que maus, pertencem à classe dos Espíritos levianos", gostam de "causar pequenos vexames e contrariedades", representam "os meninos terríveis do mundo espírita".

Vai ver que foi um desses zombeteiros que fez com que o ator e deputado federal Mário Frias (PL-SP) se aproximasse de Karina Gama, que assim foi transformada em grande empresária e responsável por ONGs acolhedoras de emendas parlamentares milionárias.

O mesmo fantasminha nada camarada transformou Vorcaro em produtor do filme sobre Bolsonaro e ainda azeitou a relação perigosa entre Flávio e Vorcaro. O mais provável, porém, é que tantos fatos assombrosos não tenham nada a ver com ectoplasmas, não passem de jogo sincronizado e pesado de almas encarnadas e cheias de truques.