Fernando Molica

Os outros de Ana Paula Maia

A escritora exerce seu lugar de fala a partir de um direito básico, sua vontade de escrever sobre um determinado assunto, qualquer que seja: sua visão, única, é tão legítima quanto qualquer outra. O importante é que tenhamos mais olhares e versões, não uma restrição de quem pode dizer o quê.

Os outros de Ana Paula Maia
A escritora Ana Paula Maia, finalista do International Booker Prize Crédito: Marcelo Corrêa / Divulgação

Ao analisar, em O Globo, a obra da escritora brasileira Ana Paula Maia, finalista do importantíssimo Booker Prize, o romancista angolano José Eduardo Agualusa tocou em um ponto fundamental — a capacidade de um autor deixar seu universo particular e narrar a vida dos que lhe são estranhos, os outros.

"Larga parte da melhor ficção literária começa no instante em que deixamos de ser nós para tomarmos o lugar de um dos muitos seres que nos habitam", ressaltou Agualusa. Teve o cuidado de frisar a presença alheia em cada um de nós, escritores ou não.

Ou seja, mesmo ao tratar de pessoas que não fazem parte de seu universo mais próximo, um artista trabalha a partir da visão que tem delas. Sua obra tende a ser melhor na medida em que consiga extirpar preconceitos e estereótipos que construiu sobre este outro; uma busca necessária, na vida e na criação.

Mulher, negra, nascida em Nova Iguaçu (RJ), Ana Paula, de 48 anos, escreve sobre homens brutos, violentos, donos de biografias que, aqui e ali mencionadas, movem-se um universo duro, pesado, feio, agressivo, que existem apenas no mapa de sua ficção. São personagens ao mesmo tempo vítimas e algozes, batem cabeça em matadouros, carvoarias e cadeias.

Ana Paula não é homem, não viveu nesses ambientes, ainda que tenha testemunhado a rotina de trabalhadores braçais. Mas sua biografia, tão diferente das de Valdênio, Melquíades e de Bronco Gil, não retira sua legitimidade de falar sobre eles, de imaginá-los, de criá-los, de jogá-los no nosso mundo de leitores.

Ao tratar de um outro tão evidente, Ana Paula exerce uma das principais possibilidades da arte, a que nos permite tentar compreender aquele que nos é estranho. A boa literatura precisa ir além da conversa entre iguais, da reafirmação de consensos, de busca de unanimidades, torna-se mais relevante na medida em que busca o não óbvio. Um exercício que, no artigo, Agualusa chama de "grande milagre da literatura".

Em um país tão desigual, racista e machista como o nosso, escrever e publicar livros ainda é, majoritariamente, privilégio que se confunde com a origem dos autores. Barreira de muros tão altos como as presentes em livros de Ana Paula que, aos poucos, vem sendo derrubada, mas que ainda está lá. Mas essa lenta demolição já permite ao leitor acesso a narrativas fundamentais e necessárias, construídas a partir de visões historicamente silenciadas.

A permanência de tantas exclusões não deve ser, porém, limitadora, nem determinar o rumo das prosas. A mulher Ana Paula resolveu escrever sobre homens de um universo distante do seu, homens que assim passaram a existir e que dialogam com todos nós.

A escritora exerce seu lugar de fala a partir de um direito básico, sua vontade de escrever sobre um determinado assunto, qualquer que seja: sua visão, única, é tão legítima quanto qualquer outra. O importante é que tenhamos mais olhares e versões, não uma restrição de quem pode dizer o quê.

Ao exercitar seu jeito de ver aqueles homens sujos, condenados, oprimidos, ela remete às possibilidades e condenações de vida de cada um de nós; ao focalizar situações-limite, a escritora humaniza seus personagens, torna públicas trajetórias tão apartadas de nossas vidas. Assim, fala também de si, de todos nós, de tantas outras opressões.