A pesquisa Atlas/Intel e a confissão de Flávio Bolsonaro, que admitiu ter visitado Daniel Vorcaro depois que este havia sido preso, dão novo sentido à palavra "horse" presente no título do filme sobre Jair Bolsonaro e indicam que o pré-candidato do PL tem grandes chances de cair do cavalo.
"Dark Horse", literalmente "cavalo escuro", é uma expressão em inglês que designa o azarão, aquele que contraria os prognósticos e sai vencedor de uma disputa. O título é uma referência a Jair e seu improvável triunfo em 2018.
Mas as palavras e os fatos são traiçoeiros. Depois de toda essa lambança relacionada ao filme, Flávio Bolsonaro é que se vê na condição de azarão — mas, aqui, sem qualquer conotação positiva. É como se ele, de possível puro-sangue inglês, o rei das pistas, virasse pangaré.
Evidentemente que tudo pode mudar, não seria a primeira vez que sapos virariam príncipes; na vida política, cavalos mancos têm chance de recuperarem o garbo e ganharem páreos importantes.
O problema é que Flávio acumula excesso de problemas em sua biografia. A anulação das provas do caso das rachadinhas não eliminou a evidência de que o faz-tudo Fabrício Queiróz pagava contas da família do chefe com dinheiro vivo que não saía das contas de Flávio ou de sua mulher; os lucros exorbitantes da fantástica loja de chocolates também desafiam a realidade do comércio; as complicadas e suspeitas transações imobiliárias também mereceriam mais explicações.
Tudo isso tinha sido que meio sepultado, receberia, na campanha eleitoral, a velha e sempre útil definição de "denúncia requentada". Mas a batata quente das relações com o amigo de fé, irmão camarada Vorcaro não pode ser ignorada — e seu calor contamina o que havia sido posto na geladeira, restos que envolvem Bolsonaro-pai.
A conversa que trata do pedido de dinheiro feito ao então dono do Master deixa evidente que Vorcaro participava do projeto eleitoral da família Bolsonaro e remete às milionárias doações que seu parça Fabiano Zettel fez para a campanha de reeleição do ex-presidente (R$ 3 milhões) e para a eleição de Tarcísio de Freitas para o governo de São Paulo (R$ 2 milhões).
O caso Flávio/Vorcaro estourou pouco depois da operação da Polícia Federal que teve como um dos alvos o senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro-chefe da Casa Civil do Bolsonaro-pai e citado por Flávio como um possível candidato a vice-presidente em sua chapa.
Segundo as investigações, Nogueira teria recebido pronto do Master o texto da emenda que beneficiaria o banco. E Vorcaro só virou banqueiro graças à boa-vontade do Banco Central então presidido por Roberto Campos Neto, aquele que foi votar vestido com a amarelinha apropriada pelos bolsonaristas.
A perspectiva familiar adotada por Bolsonaro-pai na política dificulta um movimento que seria razoável, a retirada da candidatura de Flávio até para tentar esfriar o assunto. Isso, em tese, tiraria o clã dos holofotes e ajudaria os aliados. O problema é que, para Jair, os correligionários que importam são os que têm seu sobrenome — desde o registro de nascimento.
Corridas de cavalo são imprevisíveis, não resistem a segredos de cocheira. Mas, ao que tudo indica, Flávio, depois do novo tombo, vai ficar na largada.