Por: Fernando Molica

Deputado preso: mais um

Deputado Thiago Rangel, preso ontem pela Polícia Federal | Foto: Thiago Lontra / Alerj

A decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, de prender o deputado fluminense Thiago Rangel (Avante) — mais um! mais um! — repete uma espécie de roteiro do processo de privatização e de espoliação do Estado.

O esquema é simples: em busca de apoio no Legislativo (neste caso, a Assembleia Legislativa do Estado do Rio), um chefe do Executivo (foi o então governador Cláudio Castro, do PL) loteia a máquina pública. Pedaços da estrutura são entregues para deputados para que dela façam o que bem entenderem. Não é raro que optem por roubar.

De um modo geral, essa entrega de setores do Estado não está relacionada à aplicação de determinadas políticas públicas compatíveis com a ideologia do partido aquinhoado. O parlamentar recebe esses espaços para deles usufruir. Isso inclui a possibilidade de empregar protegidos e/ou cabos eleitorais e, se for o caso, embolsar dinheiro relacionado à contratação de obras e serviços.

Descompromissados com a defesa de determinadas políticas públicas, muitos políticos usam seus mandatos como passaportes para o enriquecimento ilícito. Acham que é deles o que pertence a todos nós.

Há ocupantes de cargos públicos e até mesmo analistas da cena institucional que enchem a boca para dizer que esse tipo de prática é uma forma clássica de "fazer política". Há uns dias, diante das surras que o governo federal levou do Congresso, alguns chegaram a dizer que  o presidente precisava "fazer política".

A expressão acabou virando um eufemismo para a prática da bandalheira — antigamente, pelo menos, falava-se mais em toma lá-dá cá, algo mais próximo da realidade. Governos que exercitam o tal fazer político com frequência são exaltados por sua capacidade de articulação e de convencimento; recebem elogios por ter tão boas relações com o Legislativo.

Isso, claro, até o momento em que a casa cai. Aí, todo mundo lembra das nomeações para a Caixa Econômica, para estatais, para a intocável e, de certa forma, exemplar Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba, a Codevasf, oito letrinhas que choram pelas riquezas por ela derramadas.  

Esse esquemão de operar (verbo mais dúbio e, por isso, neste caso, mais exato) a política funciona no país inteiro, está espalhado pelos diferentes níveis de governo. O que muda é o grau de comprometimento de agentes públicos com essas jogadas.

Importante ressaltar que todas essas maracutaias têm como cúmplices eleitores que, nas urnas, pouco dão importância a aspectos mais importantes e amplos desse ou daquele candidato, das propostas defendidas por seu partido. Isso, principalmente no caso de escolha de representantes no Poder Legislativo.

E aí, tome de vereadores e deputados eleitos com base em promessas vagas e imprecisas ligadas a discursos genéricos relacionados a objetivos de difícil avaliação — costumam falar em Deus, em religião, em família, questões que não têm a ver com políticas pública. É importante que a polícia e a Justiça prendam quem surrupia dinheiro que é de todos, mas o eleitor bem que poderia ajudar um pouco.