Por: Fernando Molica

Lula: derrotas e guinada à esquerda

Presidente Lula se viu obrigado a fazer uma correção de rumo. | Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

As duas goleadas impostas pelo Congresso e a proximidade das eleições obrigaram o presidente Lula (PT) a, pelo menos no discurso, retomar uma luta de viés político, de disputa da consciência dos cidadãos. No pronunciamento pela passagem do 1º de Maio, ele demonstrou a necessidade de tentar sair do canto do ringue onde ele e quase toda a esquerda foram colocados pela ascensão conservadora.

Como indicam as pesquisas eleitorais, a apertada vitória em 2022 não demonstrou uma retomada da hegemonia de uma lógica progressista. Isso também foi evidenciado pelos resultados das eleições para o Congresso e para governos estaduais. 

Não é absurdo dizer que a derrota de Jair Bolsonaro se deu, em grande parte, pelos desvarios cometidos pelo então presidente, que, na ânsia de se manter no poder, acumulou erros no combate à pandemia e deixou evidente sua disposição de recorrer a um golpe para não ser defenestrado.

Em 2022, o país retirou Bolsonaro da Presidência, mas reiterou, em grande parte, a preferência por um discurso de direita que, associado a um viés religioso, jogou no mesmo balaio defesa de valores tradicionais, estímulo à violência policial, desprezo por questões ambientais e admiração por um modelo de crescimento individual, e não coletivo. Detectada por sucessivas pesquisas, a resistência a Lula entre jovens e integrantes da baixa classe média — de renda familiar de dois a cinco salários mínimos — mostra o tamanho do problema.

Acuada, boa parte da esquerda — Lula, inclusive — abriu mão de discutir posições mais amplas e tratou de se mostrar confiável ao eleitor conservador. A indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para o Supremo Tribunal Federal foi uma espécie de rendição do petista, o reconhecimento de uma incapacidade de dialogar com um país diferente daquele em que construiu sua vida política.

Ficou claro que Lula escolheu Messias por confiar em sua fidelidade, mas também pela vontade de apresentá-lo ao país como um homem religioso e conservador. Isso acabou sendo mais importante do que ressaltar suas qualidades como jurista e defensor de valores democráticos, consagrados pela Constituição. Na prática, o presidente reeditou a história do "terrivelmente evangélico" lançada por seu antecessor.

A plataforma apresentada por Jorge Messias ao Senado, durante sua sabatina, era quase um pedido de desculpas por ter sido indicado por um governo de centro-esquerda. A ênfase na sua condição de ser evangélico foi mais uma rendição do que uma afirmação. A frase "Aqui vos fala um servo de Deus" demonstrou sua incapacidade de entender qual seria seu principal papel, o de zelar pela Constituição de um estado laico.

Como líder político, Lula tem a obrigação de respeitar a vontade majoritária do país, precisa entender mudanças na maneira do cidadão entender o mundo, mas não pode abrir mão de dizer o que pensa e de propor o que considera melhor para a sociedade.

A frente que construiu em 2022 era justificável pela necessidade de fazer o país retomar uma institucionalidade não sujeita às chuvas e trovoadas promovidas por Bolsonaro. Mas um fato conjuntural não pode determinar o fim propostas políticas e nem obstruir um debate fundamental sobre os rumos do Brasil.