Os discursos dos escritores Ana Maria Machado e Milton Hatoum na posse deste na Academia Brasileira de Letras trataram de um tema fundamental, a sedução que histórias ficcionais exercem sobre nós.
Trata-se de um processo curioso, capaz de fazer com que nos emocionemos com livros, filmes, lendas, novelas, peças de teatro, músicas: adoramos histórias que sabemos inventadas, protagonizadas, quase sempre, por pessoas que não existiram de carne e osso.
O fato de elas não terem sido gente como a gente não nos impede de chorar, de amar, de odiar, de torcer por A ou B como se estivéssemos em um jogo de futebol (outra ficção, disputa que tem um valor excepcional pela relação simbólica e apaixonada que temos com um time).
Ao recepcionar o novo integrante da ABL, Ana Maria Machado citou a tabelinha que existe entre escritor e leitor. Destacou que a escrita de Hatoum "aposta na cumplicidade inteligente entre quem cria com palavras e quem recebe essa criação com generosidade, assim se capacitando a recriar e imaginar um mundo e seus submundos". Um relato, afinal, só existe se há quem nele acredite — mesmo nos casos em que fica evidente a presença da ficção.
Depois, ressaltou como a profissão original do romancista — formado em arquitetura — é decisiva em seus livros. Afirmou que sua obra "tem estrutura sólida e bem arquitetada, que o mantém de pé, sobre fundações firmes", uma linguagem "capaz de acionar memória e imaginação sobre o tecido da observação do real". Ficção seria o resultado de uma conversa entre autor e leitores/espectadores/ouvintes, uma prosa permeada pelas experiências de cada um.
Hatoum, por sua vez, enfatizou que o leitor "acredita nas estórias inventadas, que não são casos acontecidos, mas que poderiam ter acontecido". "Então — continuou — é melhor acreditar nas estórias inventadas: são mais verdadeiras e menos constrangedoras".
Citou ainda um aparente parodoxo em um conto de Guimarães Rosa. Nele, o narrador afirma: "E assim se passaram pelo menos seis ou seis anos e meio, direitinho desse jeito, sem tirar nem pôr, sem mentira nenhuma, porque esta aqui é uma estória inventada, e não é um caso acontecido, não senhor". Ou seja, a boa ficção não mente.
Para Hatoum, escritores, poetas e leitores são "imigrantes do imaginário"; capazes de superar qualquer tipo de fronteira, alimentam-se também "da imaginação, dos sonhos e das línguas alheias". Uma constatação que embute o que talvez a literatura e as artes de um modo geral tenham de melhor: a capacidade de promover a possibilidade de entendimento do outro, daquele que nos era estranho, mesmo vivendo no mesmo país, na mesma cidade, no limite, na mesma casa.
Uma característica de abertura ao desconhecido que faz da literatura uma adversária de certezas, de verdades absolutas, do que Ana Maria Machado classificou de "fórmulas simplificadoras ou oportunismo seletivo".
Milton Hatoum matou no peito e frisou: o que se espera de um texto literário "é justamente o inesperado, o mistério, a complexidade dos conflitos e a dimensão simbólica de seus enigmas, que nunca se revelam por inteiro". Como a vida, do jeito que ela é, completaria Nelson Rodrigues.