Por: Fernando Molica

Jorge, o santo que ficou pop

Festa diante do Santuário de São Jorge, em Quintino | Foto: Beto Soares/Prefeitura do Rio

O 23 de abril, dia de São Jorge, merece ser incluído no calendário carioca de eventos. A festança ultrapassou os limites religiosos e ganhou uma dimensão capaz animar o mais obstinado dos ateus, nem que seja para comer uma das milhares de feijoadas que ocorrem na cidade.

Em algumas poucas décadas, a comemoração de características mais suburbanas se espalhou pelo Rio, conquistou adeptos, fiéis e curiosos.

Havia muito tempo que a festa ia além das igrejas católicas e de terreiros de religiões de matriz africana, São Jorge/Ogum já circulava com altivez pelas ruas. Mas é curioso como o culto se disseminou mesmo diante do crescimento de igrejas evangélicas, fenômeno que contribuiu para a diminuição do viés religioso do Réveillon nas praias e para uma queda na distribuição de doces no dia de São Cosme e São Damião.

O historiador Luiz Antonio Simas, autor de "São Jorge, o santo do povo e o povo do santo" (Planeta), diz que a violência contribuiu para a busca de proteção de um santo bom de briga, padroeiro, como ressalta, da PM fluminense e do Comando Vermelho (é dura a vida de santo).

É provável que uma migração de suburbanos para Zona Sul tenha contribuído para o espalhamento do culto. É razoável pensar que a pressão de evangélicos mais radicais tanha gerado um certo movimento de união em torno do santo — nessa hora, melhor deixar de lado o padroeiro São Sebastião (retratado triste, flechado e amarrado ao tronco) e substituí-lo pelo guerreiro que encara e mata o dragão.

São Jorge, bom de ser invocado na hora de perrengues tradicionais como pobreza, injustiça e doenças, acabou escalado também para encarar a disputa pelo espaço sagrado das ruas. O vermelho de sua capa ganhou para muitos um viés político, de luta. 

O processo de transformação de São Jorge em ícone pop passa pelo reconhecimento da matriz popular da cultura que se produz na cidade; dialogar com o Rio implica homenagear essas origens. Cultuar o santo é também mostrar intimidade com a cidade que amamos. Ao longo dos séculos, o sujeito nascido lá longe, na Capadócia, virou um de nós, aprendeu a gostar de samba, de funk, de feijoada, de barulho. 

Essa identificação de São Jorge com o Rio acabou servindo de barreira a uma pregação excludente, que associa santos e orixás a manifestações demoníacas: muita gente caiu do cavalo ao tentar colar no companheiro de tantas brigas um rótulo que o associa ao mal. 

No livro, Simas cita um velho morador de subúrbio carioca que, numa entrevista à TV, definiu São Jorge como um vizinho a quem se recorre na hora do aperto. Talvez esta seja uma boa chave para explicar o crescimento de sua popularidade e sua resiliência. Mais do que tudo, ele é um companheiro de muito tempo. Daqueles de quem podemos até nos afastar — cada um que cuide de seus muitos dragões —, mas ninguém renega um amigo de infância.