O nome do morro carioca — Dois Irmãos — onde turistas ficaram isolados por um tiroteio indica uma cidade marcada pela dicotomia entre asfalto e favela. Dois irmãos que, vivendo juntos, não conseguem negar suas diferenças e se mostram cada vez mais incapazes de exercitar alguma fraternidade.
A imagem dos visitantes presos no cocuruto do morro poderia entrar num clipe de "Rio 40 graus" ("Purgatório da beleza e do caos"), de Fernanda Abreu, Fausto Fawcett e Carlos Laufer. Ilustra um isolamento que muitos não aceitam ver — ou o admitem, desde que circunscrito aos moradores de favelas, vítimas frequentes de confrontos.
Confinados diante de uma paisagem deslumbrante, cercados pela mata e pelo mar, aquelas pessoas experimentaram, por cerca de uma hora, um inferno bem conhecido por habitantes de comunidades pobres da cidade. O curioso é que, desta vez, o morro, aqui como sinônimo de favela, é que estava aos pés dos visitantes, algumas centenas de metros abaixo deles.
A situação remete a uma série de relatos que exploraram contradições entre irmãos: o certinho e o desvairado; o religioso e o ateu; o estudioso e o relapso; o trabalhador e o vagabundo; Caim e Abel; Pedro e Paulo de "Esaú e Jacó", de Machado de Assis; Yaqub e Omar do romance de Milton Hatoum batizado com o mesmo nome do penhasco duplo que se ergue no fim do Leblon.
Durante muitas décadas, houve por aqui alguma convivência entre o irmão rico e o pobre; uma relação que, embora nascida da suprema crueldade da escravidão, forjou a cultura carioca e permitiu o desenvolvimento do ritmo que melhor nos traduz. O samba ganhou tamanha força não por ter crescido isolado no morro, mas por ter dialogado com a cidade branca.
O Rio e o Brasil são herdeiros de uma cultura nascida do convívio entre diferenças. Mas não haveria como sustentar para sempre um relacionamento minado pelo abismo social, pelo racismo, por diferentes formas de discriminação. O país preferiu radicalizar sua versão do apartheid, investir no aumento das distâncias, acreditou na construção de cercas, de muros cada vez mais altos.
Aqueles homens e mulheres presos no alto do morro servem de metáfora de uma sociedade construída com base no isolamento. Eles e elas representam o impasse e o beco sem saída que há séculos são erguidos por aqui. Uma separação tão grande que virou armadilha; mecanismo que acabou disparado pela ação da polícia, instituição criada para controlar as tais classes perigosas. O chavão sobre feitiço que vitima o feiticeiro é quase inevitável.
As pessoas que lá ficaram sitiadas acabaram servindo de exemplo de um Brasil que acha possível manter a miséria e, mesmo, dela usufruir — é como assistir de camarote ao desfile de escolas de samba nascidas na pobreza. A trilha que leva ao Dois Irmãos segue a mesma lógica: para chegar até seu início é preciso atravessar a favela do Vidigal, algo que acrescenta pitadas de exotismo e de aventura à jornada.
Em busca da alvorada lá no morro — que beleza! —, aqueles turistas testemunharam mais um repetitivo poente de um país que insiste em errar, que teima em excluir, que aposta na separação. Música parada sobre uma montanha em movimento, como diz Chico Buarque na canção "Dois irmãos".