Por: Fernando Molica

Vieira ajudou ministros

Alessandro Vieira mirou no STF e teve relatório rejeitado | Foto: Andressa Anholete/Agência Senado

O senador Alessandro Vieira (MDB-SE) errou feio ao pedir o indiciamento de três ministros do Supremo Tribunal Federal e do procurador-geral da República — e só dos quatro — numa CPI dedicada a apurar o crime organizado. É como se carimbasse na testa dessas autoridades o carimbo de quadrilheiros.

Há motivos para, em maior ou menor grau, desconfiar de atitudes tomadas por Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Paulo Gonet: mas onde estão os demais, integrantes ou chefes do crime organizado no país? Há, no próprio Congresso Nacional, pessoas tão ou mais suspeitas que os citados. Bastava abrir o jornal para Vieira engordar sua lista.

Isso, sem falar em notórias organizações criminosas, como o PCC e o Comando Vermelho, e de dezenas de outras. A CPI teria feito um grande trabalho se ao menos tentasse mostrar as ligações dessas quadrilhas com tanta gente poderosa que as viabiliza. Pessoas ligadas à estrutura do Estado — não apenas à polícia — e a grandes empresas.

Delegado de polícia, Vieira sabe muito bem a falácia que é concentrar esforços no combate à face visível do crime, a espalhada nas periferias e no alto de favelas. Mas perseguir ligações entre os níveis de estruturas bandidas dá trabalho, requer esforço, investigação, cruzamento de dados; seria quase impossível uma CPI fazer isso, mas não custaria nada apontar caminhos e indicar alternativas.

Vieira, porém, tratou de inverter o mote consagrado em "Casablanca": ao invés de prender os suspeitos de sempre, tentou indiciar os suspeitos da moda, autoridades — especialmente Moraes e Toffoli — que devem explicações no caso do Banco Master. Fez como Alfredo Gaspar (PL-AL), relator da CPMI do INSS, ao pedir, sem evidências, o indiciamento de Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente Lula. 

Ao agir à moda Lava Jato, Vieira surfou na mesma onda política de Sérgio Moro e de Deltan Dallagnol; um tipo de erro que, no limite, favorece os próprios suspeitos: os ministros incluídos na lista têm agora uma ótima razão para alegarem que, no fundo, as alegações contra eles não passam de uma perseguição ao Poder Judiciário.

Como policial, o senador sabe que culpados adoram quando, no meio da confusão, são alvo de uma acusação injusta — passam a usá-la como prova de inocência.

Assim, a trapalhada cometida pelo emedebista dificulta a mais do que necessária reavaliação institucional do STF, que, tendo sido essencial na preservação da democracia, não soube se readequar; entre seus integrantes há os que se acham donos de poderes ilimitados, como se, em jatinhos virtuais, voassem acima de qualquer turbulência.

O erro de Vieira só ocorreu porque integrantes do STF deram margem a suspeitas, cometeram gestos que são, no mínimo, impróprios para integrantes de uma suprema corte. Uma coleção de fatos que inclui presença em eventos desnecessários, quase sempre patrocinados por gente enrolada em processos, e o estímulo à uma espécie de advocacia de parentela, em que o sobrenome do defensor é mais relevante que seu talento.

Quase todos os envolvidos pisaram na bola, ministros não agiram como membros do STF, Paulo Gonet, o procurador-geral da República, parece ter incorporado a lógica engavetadora de Augusto Aras e Geraldo Brindeiro. E o delegado Vieira atuou apenas como político.