Por: Fernando Molica

Festeiros que geraram segurança

Roda de samba no Largo da Prainha, Centro do Rio. | Foto: Divulgação

Pode parecer engraçado até para eles, mas dois dos grandes responsáveis pela melhoria da segurança em ruas cariocas são o livreiro Rodrigo Ferrari (o Digão) e o dono de bares Raphael Vidal. Eles conseguiram tamanha proeza não investindo em homens armados ou em moderníssimos sistemas de alarme e vigilância: apenas trataram de colocar gente em ruas do Centro da cidade.

Ao criar, há quase 20 anos, uma roda de samba na Rua do Ouvidor, Digão fez muito mais do que aumentar a frequência de sua livraria, a essencial Folha Seca: gerou um novo lugar de encontros. Mais do que devolver à Ouvidor a centralidade que deveria ter perdido, ele fez com que cariocas redescobrissem aquele belíssimo conjunto de construções.

A roda cresceu, gerou filhotes por toda aquela região. Isso fez com que fossem multiplicados os bares e restaurantes que criaram muitos empregos, que botaram grana para circular. É tanta gente que aquelas ruas viraram um lugar seguro nos dias de evento.

Fenômeno  semelhante ocorreu no também belíssimo Largo de São Francisco da Prainha, ali atrás da Praça Mauá. Um chope para quem, há uns dez anos, soubesse da existência de tal logradouro, uma espécie de barriga da Rua Sacadura Cabral. Mas Vidal, então morador do Morro da Conceição, alugou um sobrado e criou a Casa Porto, sem saber se faria ou bar ou um centro cultural. Num primeiro momento, não fez nenhum dos dois, ficou no meio do caminho.

Vidal resolveu investir no negócio, e veio a pandemia. No sufoco, olhou em volta e encontrou uma saída coletiva — organizou, com motociclistas da região, um sistema de entrega de comida mais justo e humanizado. O negócio deu certo, vieram outros bares e muitas, muitas e muitas pessoas. O Largo da Prainha é hoje um dos locais mais seguros do Rio.

É claro que iniciativas isoladas não dariam conta da questão da segurança, um problema complexo que costuma ser visto apenas por suas consequências, pelos fatos terríveis e dolorosos que ocorrem depois de uma sequência de erros cometidos em série em uma sociedade tão desigual e excludente, não raras vezes governada por cúmplices de uma criminalidade pesada. A Rua do Ouvidor e o Largo da Prainha são como ilhas que chegam a contrastar com um entorno com frequência abandonado e deserto.

Mas os exemplos dados pelo Digão e pelo Vidal mostram que as melhores saídas para aumento de segurança não passam pela colocação de cercas, mas por sua gradual abolição. Cidades seguras são aquelas mais afáveis e alegres, que incluem mais e mais pessoas, que têm suas ruas ocupadas, que estimulam educação,criam e distribuem renda, chamam mais gente para a festa.