Independentemente do que tenha feito entre a noite de ontem e a madrugada de hoje, Donald Trump, ao ameaçar destruir o Irã, cumpriu a promessa de acabar com uma civilização inteira — a norte-americana.
O ataque que seu governo, aliado a Israel, promove contra o Irã revela ao mundo a fragilidade dos mecanismos de controle do país que, por décadas, apresentava-se como um exemplo de democracia, dono de um sistema de freios e contrapesos capaz de conter insanidades acima de um determinado grau. É como se Trump tivesse jogado uma bomba atômica no espírito da nação.
Ao longo de sua história, os EUA abusaram de seu poder, financiaram golpes, estimularam revoltas, promoveram e adotaram ditaduras, criaram guerras absurdas como a do Vietnã. A atuação decisiva contra o nazifascismo, ao lado, principalmente, da União Soviética e do Reino Unido, não apaga os pecados norte-americanos.
Mas nada pode ser comparável com os delírios trumpistas, um ataque não apenas a outros povos e países, mas aos EUA, à ideia de uma nação poderosa, mas capaz de estabelecer diálogos e negociações com o mundo.
Ao longo de seu segundo mandato, o ocupante da Casa Branca promove uma destruição sistemática de valores que seus conterrâneos sempre disseram defender. O que vale é a lei do mais forte, e todos sabemos quem é o dono da bola.
Trump abusa do direito de fazer o que não deve diante da passividade cúmplice dos poderes Legislativo e Judiciário. Este chegou ao ponto de legitimar o sequestro de um presidente estrangeiro — Nicolás Maduro —, ação que, envevenada na sua origem, deveria ter contaminado todo o processo. O fato de o venezuelano ser um ditador não legitima a invasão de seu país e sua prisão.
Os sucessivos assassinatos de barqueiros, a perseguição a imigrantes, a separação de crianças de seus pais também demonstraram a passividade de um sistema judicial que sabe brilhar muito bem nas telas dos cinemas.
O presidente tem o direito e o dever de resguardar os interesses de seu país, mas não o de subjulgar outros povos. Por mais cruel que o regime iraniano seja — e isto é inegável —, não cabe aos EUA agirem como polícia do mundo.
Não há justificativa moral e ética para o início da guerra, conflito também incentivado pelo governo de Benjamin Netanyahu, homem responsável por tantos massacres e que, como Trump, chegou ao poder graças à vontade soberana da maioria da população de seu país.
Com seus gestos e falas, Trump dá razão a todos os que, ao longo do tempo, questionaram a sinceridade dos valores que os EUA sempre disseram defender. Um país que agora demonstra ser incapaz de conter excessos evidentes de seu presidente: sequer gigantescas manifestações promovidas nos EUA foram capazes de sensibilizar os que teriam como controlar o presidente.
A passividade com que outros poderes se comportam demonstra a fragilidade institucional do país que se apresentava como palmatória do mundo. Trump demonstra ser incontrolável, atua como se, investido na condição de astronauta da Artemis II, revivesse Charles Chaplin e tratasse de, num gesto de domínio, abraçar a bola azul onde vivemos.