Deu nos jornais que ministros do Supremo Tribunal Federal e senadores — entre eles, o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP) — andam chateados, capazes até de recuperarem a hastag #chatiados que fez sucesso em redes sociais.
A irritação no STF seria com o presidente da corte, Edson Fachin, que falou o óbvio: 1. juízes podem errar e precisam responder por isso; 2. quem age de maneira não ética precisa repensar suas atitudes. Alguém seria capaz de discordar dessas singelas observações?
Já Alcolumbre estaria magoado com o presidente da República porque este não lhe avisou que enviaria para o Senado a indicação de Jorge Messias para o STF. Outros senadores ficaram revoltados porque Lula, em entrevista, disse que senador pensa que é Deus por ter mandato de oito anos.
Se suas excelências fizeram beicinho porque consideram que houve indelicadeza por parte de Fachin e Lula, imagine o tamanho da nossa indignação, nós que pagamos os salários de todos os citados nos três primeiros parágrafos deste texto.
Um ministro do STF — Dias Toffoli — manteve em sigilo durante um bom tempo que havia sido sócio de resort no Paraná; foi ver a final da Libertadores ao lado de um advogado do grupo Master, ambos, de carona num jatinho de empresário.
Segundo a Folha de S.Paulo, Alexandre de Moraes, outro integrante da corte, viajou oito vezes em jatinhos de empresas ligadas a ex-diretores do Master. Mulher de Moraes, a advogada Viviane Barci de Moraes, diz que seu escritório alugou serviços de táxi aéreo. Sua banca era a que recebia R$ 3,3 milhões mensais do banco. Já o filho do ministro Nunes Marques recebeu pagamento de consultoria paga pelo Master e pela JBS.
Os ministros da suprema corte já deveriam ter notado que os problemas que afetam a credibilidade da suprema corte foram criados por eles, não por Fachin, que apenas verbalizou — de maneira educada e até contida — o pensamento de qualquer cidadão. Diante de um incêndio que eles mesmos provocaram, integrantes do STF parecem mais preocupados com o tipo de ruído produzido pelo alarme.
Alcolumbre tem todo o direito de discordar de Lula. Mas, no caso da indicação de Messias, agiu de maneira muito mais condenável que o presidente. Claro que essa história de escolher amigos de fé, irmãos camaradas para o STF é péssima, mas a Constituição diz que isso é prerrogativa do presidente da República, não do presidente do Senado. E Alcolumbre fez de tudo para impor seu favorito. Birra por birra, imagine a dos servidores do Amapá, que viram R$ 400 milhões de seu fundo de pensão virarem pó em papéis do Master. O governador do estado é aliado de Alcolumbre.
Já senadores demonstram uma fúria divina ao serem comparados a Deus — logo eles que, em dezembro passado, deram benefícios celestiais a funcionários da Casa. Deveriam ficar orgulhosos com o reconhecimento de seu poder e, mesmo, independência (vale lembrar que Darcy Ribeiro, logo depois de assumir seu mandato, disse que o Senado era o Céu).
Ministros do STF e senadores, são poderosos, têm o sagrado direito de contestarem suspeitas e até de ficarem meio magoados. Mas, caramba, não transformem questões pessoais em crises institucionais, vocês têm mais o que fazer.