Por: Fernando Molica

Verbos cansados, mas vivos

Alexandre Brandão, autor dos 17 contos de "Os verbos estão cansados" | Foto: Bruno Brandão/Divulgação

Os personagens de "Os verbos estão cansados" (Patuá), livro de contos de Alexandre Brandão, parecem ter sido encontrados por acaso pelo autor, no meio de um dia, de uma fuga, de uma briga, de uma transformação, de um susto, de um crime, de um porre em Lima.

É como se o escritor tivesse esbarrado com eles, num bar, numa esquina, num quintal, num canto de casa, e, por alguns instantes, captasse conversas, confissões e, sabe-se lá como, pensamentos.

Os personagens têm histórias concisas, ainda que algumas se alonguem por toda uma vida que tenha seguido meio arrastada por aí, sem eira, beira ou saída, passadas num país um tanto quanto esgotado de si.

Quase todos parecem em busca de um destino, de uma alternativa. Alguns tentam equacionar um passado que insiste em retornar como o pai que, morto, torna-se ainda mais ansioso que em vida, ou a mãe que não para de se suicidar.

Há o homem que se vê obrigado a fugir da fama de herói que considera injusta, resultado do gesto abrupto que cometera, o de matar um assaltante. Antes tivesse continuado a viver entre as frutas feitas geleias e as flores bem-arranjadas — uma combinação que seria desarrumada pelo tiro e pela notoriedade.

Isildinha, Dora — que detesta seu nome que carrega a palavra dor —, Estefânia, Nani, Cacá, Enzo: todos aparentam algum tipo de cansaço naqueles instantes em que acabam flagrados pelo autor.

Há os que se assustam como Ângela, aquela que tenta negar o próprio espanto, ou como a menina supreendida por algo que, naquele momento, não sabe definir — discreto, o escritor evita maiores especulações e violações de intimidade.

Um dos grandes méritos do livro é o de fugir da onisciência, como se Brandão admitisse sua incapacidade de saber mais de suas criaturas do que estas julgam conhecer de si mesmas. Elas ficam em suas histórias: pensam, deliram, agem; e ele nos conta o que sabe.

Nós, leitores, que tratemos de preencher os vazios de histórias que não caem na escorregadia e impossível tentação de buscar esgotar a vida de quem quer que seja.

Há personagens mais decididos, como a que dispara a própria vida ao acertar um tiro no meio da testa de alguém que encarnava o poder, e o outro que, músico, vai ao céu na carona de Pixinguinha. Os verbos podem estar cansados, mas, de um jeito ou de outro, continuam vivos; encarnam em vidas discretas, severinas e delicadas como um solo de oboé.