A insistência com que o governo tem divulgado imagens de Lula se exercitando — correndo, levantando pesos — indica que a comunicação do Planalto detectou que os 80 anos do presidente se transformaram num problema junto ao eleitor. Daí a necessidade de mostrar que ele está em boa forma e bem de saúde: caso seja reeleito, ele assumirá o novo mandato com 81 anos.
Avanços da ciência e mudanças no comportamento aumentaram a expectativa de vida e diminuíram o peso da idade. Seria impensável, há alguns anos, que um octagenário se dispusesse a concorrer à Presidência. Getúlio Vargas, sim, aquele ancião, saiu da vida para entrar na história aos 72 anos. Em meados dos anos 1980, muita gente via na idade de Tancredo Neves um problemaço para que ele se candidatasse ao Planalto: depois de longa agonia, ele morreu aos 75 anos.
Ulysses Guimarães concorreu à Presidência em 1989. Sua aparência de idoso era tanta que sua campanha teve a — infeliz — ideia de ressaltar esssa característica. Seu jingle de campanha era "Bote fé no velhinho/ O velhinho é demais". O eleitor não botou fé no peemedebista nem votos com seu nome na rua: ele recebeu 4,74% dos votos e ficou em sétimo lugar no primeiro turno. Tinha 73 anos.
Mas o maior problema de Lula talvez não seja a idade cronológica, nem suas condições de saúde, mas sua onipresença no cenário político, uma eventual incapacidade de surpreender o público. Ele disputa eleições há 44 anos, desde 1982, quando tentou o governo de São Paulo. Em 1986, foi eleito deputado federal; em 1989 entrou na primeira de suas, até agora, seis disputas presidenciais (1989, 1994, 1998, 2002, 2006, 2022).
A de outubro será sua sétima campanha para o cargo mais alto da República. Em 2010, não ficou de fora porque não poderia tentar uma segunda reeleição, em 2018, foi barrado pela Lava Jato e preso.
Depois de tanto tempo de estrada e de tanta exposição, é normal que seja difícil para Lula se apresentar como novidade. Em 2022, o petista representava a única possibilidade de se derrotar Jair Bolsonaro, o que lhe permitiu encarnar um personagem comum na dramaturgia, o do cara que, depois de ter pendurado a cartucheira, volta à cena para resolver um problema grave — há vários faroestes sobre isso (meu favorito é "Os imperdoáveis", de e com Clint Eastwood). Na época, Lula também podia se apresentar como vítima de uma injustiça que precisaria ser reparada.
O problema agora é saber se o eleitor ainda quer que Lula continue na briga. Pior: diferentemente dos mocinhos de filme, o presidente tem contra si a antipatia de muita gente. Soma-se a isso o peso da idade e de algumas posições, o mundo mundou muito nesse quase meio século de PT.
Lula tem, mais uma vez, a chance de enfrentar alguém que, também pelo sobrenome, carrega uma rejeição pesada, mas que tenta encarnar uma ideia de modernidade individualista que seduz muitos dos que não acreditam em saídas coletivas.
Lula vai precisar mostrar que ainda é ágil no gatilho, que, apesar da idade, continua bom nos duelos ao pôr do sol. Seu risco é o de ficar como o velho mágico de festa infantil cujos truques já não supreendem mais ninguém.