A classificação de monólogo para "Eu sou minha própria mulher", em cartaz no Teatro Poeira, no Rio, chega a ser imprópria: sim, há um único ator em cena, mas a peça tem uma profusão de falas vindas de duas dezenas de personagens, todos interpretados por Edwin Luisi.
É como se, ao longo de 70 minutos, houvesse vários atores no palco, tamanha a capacidade de Luisi em ser tantos, um trabalho impressionante de variação de gestos, expressões faciais, vozes, inflexões, sotaques.
Luisi vai além da definição atribuída à protagonista, a travesti Charlotte Von Mahlsdorf: segundo o texto, ela disse ser a própria mulher. Em cena, o ator é ela, mas ele também são eles, os demais personagens; apropria-se de todos.
A peça, do norte-americano Doug Wright, trata de um personagem real: nascida menino, aos 15 anos assumiu a personalidade feminina — isto, em plena repressão do regime nazista. Depois, atravessou a ditadura comunista da Alemanha Oriental, que também reprimia a diversidade sexual.
A história de Charlotte (1928-2002), que fundou e manteve um bar gay em seu casarão-museu, chega a ser inacreditável. Mas inacreditável mesmo é a interpretação de Luisi, sua capacidade de, em instantes, passar de um personagem para outro.
Algumas vezes, isso ocorre ao longo de um gesto, quando uma típica postura masculina é substituída pela de uma senhorinha alemã, uma daquelas de histórias infantis. A personagem transformou-se em mulher, e assim é vista pelo autor, por Luisi e pelo diretor da montagem, Herson Capri. As muitas transições são feitas com precisão e delicadeza, a poucos metros de distância da plateia que cerca o palco em forma de arena.
As mudanças de personagens encontram apoio no figurino de Marcelo Marques, que tem elementos masculinos — botas, calças compridas — e uma espécie de véu amarrado à cintura que, obediente ao ator, se transforma em saia ou vestido.
Montada pela primeira vez em 2007 pelo próprio Luisi, "Eu sou a minha própria mulher" renova o desafio proposto pelo teatro de recontar histórias, de apresentar versões, de questionar o estabelecido.
Mais do que apresentar a trajetória de uma mulher trans, a peça fala de seres humanos — pessoas com esperanças, sonhos e desejos — impactados por diferentes formas de opressão, em particular, a encarnada por ditaduras.
A montagem reafirma também o poder do ator, não de incorporar personagens, mas de vê-los, compreendê-los e mostrá-los. No caso, o público tem o privilégio de acompanhar um processo de reinvenção do próprio texto de Wright que, no palco, ganha coautoria de Luisi.