"Bora comprar um jatinho." A frase, dita pela advogada Cecilia Rodrigues, presa por suposto envolvimento com uma das quadrilhas que assaltaram aposentados e ligada à deputada Gorete Pereira (MDB-CE), dá uma ideia do tamanho da bandalheira geral que assola a república.
A condenação de dois deputados e um ex-parlamentar, todos do PL, por envolvimento com desvio de emendas parlamentares e o barata-voa provocado pelo caso do Banco Master são outras figurinhas importantes no álbum que ilustra a generalização da roubalheira entre nós.
O roubo de dinheiro público parece ter virado regra, e não exceção. Não faz tanto tempo assim que políticos associados à corrupção tinham nome, viraram folclore. Nascido para a atividade pública por obra e graça da ditadura, Paulo Maluf chegou a inspirar o verbo malufar — sinônimo de surrupiar cofres públicos, como registrou reportagem do jornal francês Le Monde publicada em 2005. Ele acabou condenado por esse tipo de desvio.
Padroeiro do Centrão, o ex-deputado Roberto Cardoso Alves foi outro que contribuiu para histórias relacionadas ao uso suspeito da grana de todos nós. Isso, ao usar a oração de São Francisco de Assis — coitado do santo — para justificar o toma lá-dá cá que tanto caracteriza os acordos políticos: "É dando que se recebe", anunciou. Passaria a ser conhecido ironicamente como "o franciscano".
A corrupção, importante ressalvar, é uma possibilidade ligada ao exercício do poder, especialmente — mas não exclusivamente — na área pública. Administradores lidam com verbas imensas, é praticamente impossível exercer um controle absoluto sobre os gastos. O problema é a banalização e a naturalização das safadezas.
A existência de um sistema político frágil, marcado por partidos que, na grande maioria dos casos, não têm compromissos com projetos mais amplos, facilita tudo. Essas agremiações acabam virando blocos parlamentares de defesa de interesses particulares que se materializa na venda de apoio político nas eleições e de votos na Câmara e no Senado.
As emendas parlamentares ao Orçamento, antes uma espécie de apêndice da atividade congressual, foram transformadas em elementos centrais da política. Graças à obrigatoriedade de execução da maior parte delas, deputados e senadores viraram ordenadores de despesas, podem escolher onde e como aplicar verbas que, de um modo geral, sequer são fiscalizadas com rigor.
O caso Master aponta para um descarado processo de compra e venda de agentes públicos e indica a possibilidade de cooptação de integrantes do Supremo Tribunal Federal, algo que deveria ser inimaginável. Há uma sensação de que a república foi transformada numa espécie de coleção de bolhas; algumas carimbadas pela corrupção, outras pelos privilégios como os penduricalhos que decoram salários de juízes e promotores.
O negócio parece ser incontrolável, que remete à caricatura de convidados que, numa festa, enchem os bolsos de doces e salgadinhos, algo semelhante a um vício que conduz conduz a situações patéticas, como o desejo de aplicar dinheiro de aposentados na compra de um avião. Mas tudo tem limite: como dizia uma velha marchinha de Carnaval, melhor é ir com algum jeito, senão, um dia, a casa cai.