Ao compartilhar um vídeo baseado em uma calúnia — a de que repórteres desejariam abertamente a morte de Jair Bolsonaro —, Michelle Bolsonaro prestou um favor à memória nacional: lembrou o grau de irresponsabilidade, insensatez e de mentira que vigorava no país durante o mandato do seu marido.
Com seu gesto, ela, que tem mais de oito milhões de seguidores no Instagram, deflagrou um processo de ameaças e ofensas aos jornalistas que foram de uma militante bolsonarista que os abordara diante do hospital onde o ex-presidente está internado. Pelo menos dois dos repórteres formalizaram queixa à polícia.
Ao repostar o vídeo, Michelle ajudou a recuperar o ambiente de terror que Bolsonaro, aliados e seguidores haviam implantado no país com base em fake news, deturpação de fatos e de estímulo a agressões físicas e morais a jornalistas.
A história do vídeo só faz sentido na cabeça dos que levaram para a política a lógica do fanatismo irracional, de viés religioso, movido pela crença, não pelos fatos. O material é falso a partir da legenda que o apresenta: "Jornalistas reunidos desejando a morte de Bolsonaro e comemorando por ser sexta-feira 13". Nas imagens, uma mulher vai ao encontro dos repórteres e grita na direção deles: "Vocês estão discutindo aí se o Bolsonaro morrer?".
Ela não fala que os profissionais estariam desejando a morte, mas discutindo esta possibilidade: se fizeram isso, agiram como filhos, advogados e aliados do ex-presidente que há meses alegam que ele poderá não resistir à prisão.
Na própria sexta-feira, quando a bolsonarista investiu na direção dos repórteres, os médicos responsáveis por Bolsonaro disseram que a situação do paciente era "muito grave". Um deles, Cláudio Birolini, falou em "evento potencialmente mortal".
Em tese, os médicos que cuidam do ex-presidente poderiam ter sido alvo da mulher que provocou os jornalistas: é até razoável admitir que eles, como qualquer outro brasileiro, tenham especulado sobre o risco de Bolsonaro morrer. A própria autora do vídeo deve pensado nessa possibilidade, caso contrário, não teria largado seus afazeres para ficar de plantão diante do hospital.
No vídeo, nem ela diz que os jornalistas estariam "desejando" a morte do ex-presidente: isso foi escrito por quem editou o material. Mas, vale frisar, não é crime desejar a morte de alguém, por mais cruel e revoltante que isso seja, ainda mais quando feito em público.
Em 2015, Bolsonaro agiu dessa forma ao, numa entrevista, dizer esperar que a então presidente Dilma Rousseff morrresse "infartada ou com câncer, ou de qualquer maneira". Seis anos antes, ela tratara um câncer.
Ele foi grosseiro e desrespeitoso, mas não cometeu crime — não há nada que indique que ele tenha tentado transformar seu desejo em ato (diferentemente do coronel Brilhante Ustra, uma de suas referências militares, que comandou a tortura daquela que chegaria ao Planalto).
Michelle, ao cometer a irresponsabilidade de divulgar o vídeo, mostrou, mais vez, como agem os que pregam o ódio e a desinformação. Recuperou episódios marcantes de ofensas ditas por seu marido e seguidores no cercadinho do Alvorada.