Diretor de "Dias perfeitos", o alemão Win Winders disse que o filme é o que mais perto já conseguiu chegar da paz — condição que, para ele, depende muito de se estar satifeito com o que se tem, de não ceder ao que chama de vício de crescimento.
Protagonista do longa, Hirayama (Koji Yakusho) é um homem feliz com o que tem, e tem muito pouco: mora num pequeno apartamento e limpa banheiros públicos de Tóquio.
Solitário, lê todos os dias, ouve belas canções a caminho do trabalho, lancha todos os dias num mesmo parque, molha suas plantas, fotografa sempre os mesmos galhos de uma árvore (mesmos para nós, não há luz nem movimento que se repita).
A desambição de Hirayama chega a ser incômoda: como assim ele pode dar um sorriso para o céu ao sair de casa, todos os dias, pronto para limpar banheiros? Como ser tão conformado, e tão cuidadoso ao passar pano em privadas?
Mas Hirayama não está preocupado conosco. A vida é dele, que a desfruta do jeito que quer. Há no filme indícios de problemas pretéritos com sua família, com a irmã e, talvez, com o pai. Mas essas pistas ficam soltas, o diretor do longa não pareceu muito interessado em devassar a intimidade de seu personagem.
É provável que, a exemplo de outros criadores, Wenders tenha se rendido à autonomia conquistada por sua criatura. É como se o protagonista tivesse fugido do controle do diretor e tenha decidido roteirizar e montar a própria vida.
Não se trata de se fazer uma elegia a uma vida tão modesta e simples. Mas apenas de reconhecer o óbvio, cada um tem o direito de fazer o que bem entende, desde que não faça mal a terceiros.
O personagem nos faz pensar em nossas vidas, em nosso projetos, delírios e frustrações. Na lista de canções por ele ouvidas bem que poderia estar o "Samba do Irajá", de Wilson Moreira e Nei Lopes, aquele do "Sensação de na verdade/ Não ter sido nem metade/ Daquilo que você sonhou".
Se entendesse português, Hirayama talvez desse um daqueles seus discretos sorrisos ao ouvir a gravação em uma de suas fitas cassete — saberia que a letra não fora escrita para ele. Mas também não julgaria os que com ela se identificam, que nela buscam algum consolo e carinho.
Ontem, domingo, Hirayama certamente levou suas roupas à lavanderia, passou no sebo para comprar um livro, foi ao pequeno bar comandado por uma mulher que parece encantar seus olhos e aquecer seu coração. À noite, estendeu o edredom azul sobre a esteira e dormiu bem, apesar de um ou outro sonho meio esquisito.
Hoje, acordou com a paz dos que não precisam explicar mensagens relacionadas à compra de projeto de lei ou a um conchavo com governadores, nem falar sobre contratos milionários com escritórios de advocacia. Ninguém pediu sua ajuda para tentar se livrar da cadeia. Livre, Hirayma terá hoje um outro dia perfeito.