Por: Fernando Molica

Contatinhos e PPPs de Vorcaro

Vorcaro manteve a tradição brasileira de parceria com autoridades | Foto: Divulgação/Banco Master

De fazer inveja a muitos jornalistas, a lista de telefones encontrada em celular de Daniel Vorcaro não indica necessariamente que ele tenha feito maracutaias com aquelas autoridades, mas reforça a certeza de que, no Brasil, negócios privados dependem muito da esfera pública.

O caso Master é um exemplo quase caricatural das PPPs, parcerias público-privadas de caráter informal que proliferam por aqui desde 1500. Empresários e agentes públicos fazem uma espécie de tabelinha que chega a conspirar contra a ideia da livre iniciativa.

Na campanha eleitoral de 1989, o então candidato do PCB à Presidência, Roberto Freire, foi preciso ao, provocado a falar de privatizações de estatais, afirmou que o problema maior era outro, o que chamou de privatização do Estado, a contínua utilização de recursos públicos para financiar interesses particulares.

O caráter hereditário das capitanias criadas por Portugal teve características proféticas: até hoje, o Brasil, como o antigo slogan publicitário do conhaque Dreher, é um negócio de pai para filho.

Vá lá que, em alguns momentos, empresários precisem conversar com parlamentares, prefeitos, governadores, presidente. O problema é quando isso vira algo cotidiano, necessário para a criação, manutenção e crescimento de negociatas.

Por que um banqueiro como Vorcaro precisava tanto conversar com tanta gente poderosa, nos três poderes? Foi apenas a identificação com o ideário da extrema direita que levou seu amigão, cúmplice, cunhado e ex-sócio Fabiano Zettel a, em 2022, doar R$ 3 milhões para a campanha de Jair Bolsonaro e R$ 2 milhões para a de Tarcísio de Freitas?

Com todos os seus problemas e, mesmo, crimes, a Lava Jato serviu para desmacarar o esquema me-engana-que-eu-gosto das então permitidas doações de empresas para campanhas eleitorais.

Os caras estavam pouco ligando para a ideologia dos candidatos; fizeram, por décadas, empréstimos que, no futuro, seriam devolvidos em generosos contratos. O esquema era tão indecente que as mesmas empresas financiavam políticos que concorriam entre si — o que queriam era comprar a boa vontade daquele que seria eleito.

No caso Master, o fundamental era ter parceiros entre os políticos. Estes, afinal, é que poderiam criar medidas para favorecer Vorcaro e ainda aplicar recursos públicos naquela espelunca.

Pequenos e médios investidores compraram CDBs do Master respaldados pelo Fundo Garantidor de Créditos. Já o pessoal da grana pesada tratou de proteger seus bens: passados quatro meses da liquidação decretada pelo Banco Central, não se sabe de empresas importantes que tenham aplicado dinheiro em papéis do banco.

As bombas estouraram no colo de entes públicos, principalmente fundos de pensão de estados e municípios. Seria até interessante verificar se os administradores dessas instituições colocaram o próprio dinheiro no Master ou se limitaram a nele aplicar dinheiro dos outros. 

Seria importante a Polícia Federal ouvir todos os políticos que conversaram com Vorcaro. Não custa imitar Ivete Sangalo que, em 2016, ao perceber que o então marido conversava muito com uma moça, comentou, ao microfone, que eles estavam cheios de assunto. De que tanto falavam, afinal?