Na decisão em que mandou prender Daniel Vorcaro, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, cita que ele comandava um grupo — "A Turma" — especializada em atividades ilegais. Mas, a julgar pelo tamanho do escândalo, seria mais exato falar no plural, nas diversas turmas comandadas pelo ex- banqueiro.
Assim falou Valdemar Costa Neto, presidente do PL: o caso Master envolve meio mundo e é capaz de parar o Brasil. Vale dar fé às suas palavras — muita gente voou nas asas do Vorcaro.
Turmas e mais turmas formadas por gente da política, do tal do mercado, do Judiciário e, mesmo, do Banco Central decolaram em voos, reais ou virtuais, promovidos pelo empresário. O serviço de bordo desta primeira classe incluía guias de viagem para a Disney e, para os mais crescidinhos, festas com jovens, belas e prestativas acompanhantes. Quem ameçasse provocar turbulência se arriscava a ter todos os dentes quebrados.
Voos abençoados por pastores da Igreja Batista Lagoinha. Um deles, Guilherme Batista, levou Nikolas Ferreira, na época, recém-eleito deputado, para um tour, em avião de Vorcaro, que tinha o objetivo de pedir votos para Jair Bolsonaro.
Outro pastor, Fabiano Campos Zettel, cunhado do ex-dono do Master, foi ainda mais generoso. Também em 2022, doou R$ 3 milhões para a campanha de Bolsonaro e R$ 2 milhões para a de Tarcísio de Freitas (Republicanos), que seria eleito governador de São Paulo. A Lagoinha, até outro dia, tinha uma fintech, um desses bancos que não são bancos, a Clava Forte Bank.
Pelas palavras de Costa Neto, veterano piloto, incansável desbravador de voos em céus que nada lembram os de brigadeiro, a lista de passageiros das Linhas Aéreas Daniel Vorcaro ainda vai aumentar muito, gente que ajudou a colocar no ar milhares de aviõezinhos de papel que acabaram obrigados a fazer pousos forçados no Fundo Garantidor de Créditos. Boa parte da esquadrilha, a movida por dinheiro público, continua sem ter como aterrissar.
Dá pra imaginar algo na linha daquelas telas de sites especializados em aviação, que mostram centenas de aeronaves navegando em determinadas regiões do planeta. Viagens que carregam pessoas acostumadas a pousar em outros aeroportos suspeitos, como aqueles que recebem o dinheiro de emendas parlamentares. Ontem mesmo, outro ministro do STF, Flávio Dino, mandou afastar de seus cargos o prefeito e o vice-prefeito de Macapá (AP), Dr. Furlan (PSD) e Mario Neto (Podemos), suspeitos de desvio de dinheiro da saúde.
A malha aérea dos voos suspeitos é imensa e versátil. Seus aviões, de diferentes tamanhos, pousam em grandes aeroportos ou em pistas de terra no meio da floresta, sempre orientados por controladores experientes, veteranos formados ao longo de muitas décadas. O avião de Vorcaro, nave-mãe do esquema de desvios, parece ter sido finalmente atingido. Mas seus destroços ainda permanecem no ar, e prometem fazer muito barulho ao cair.
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O suicídio, na prisão da Polícia Federal, de um dos cúmplices de Vorcaro — Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o Sicário — reforça a gravidade e a amplitude do escândalo. Vem muita turbulência por aí.