Por: Fernando Molica

Trump, o dono do mundo

Trump manda e desmanda em outros países | Foto: Official White House Photo by shealah_craighead

A julgar pelo sequestro de Nicolás Maduro e do ataque ao Irã, nós, brasileiros, deveríamos estar mais preocupados com a eleição  norte-americana de novembro do que com a nossa, em outubro: a cada dia fica mais claro que o poder de verdade está em Washington. Deveríamos até reivindicar o direito de votar nos EUA; nosso destino, no limite, pode ser decidido por lá.

O fim da URSS, as limitações europeias e a lógica chinesa de não se meter em roubadas bélicas fizeram com que o mundo passasse a ter um dono, os Estados Unidos. Os EUA podem agir com maior ou menor grau de intervencionismo, mas deixam claro que fazem o que querem, do jeito que desejam, na hora em que acharem mais conveniente.

Há algumas décadas que a prepotência deles EUA vinha aumentando, mas Donald Trump acabou com qualquer possibilidade de moderação. Tradicionais parceiros, como o Canadá e países da Europa Ocidental, passaram a ser tratados com o desdém típico de quem gosta de humilhar serviçais.

O exercício da arrogância é tamanho que Trump se dá ao direito de lançar propostas que ninguém sabe se devem ser levadas a sério, como a anexação da Groenlândia e a transformação de Gaza em sede de resorts. O fato de se dar ao direito de brincar com temas tão graves indica o tamanho de seu desprezo pelo resto do mundo.

Como nenhum país tem poder bélico para enfrentá-lo, nada pode detê-lo. Pior, não se trata de um ditador que chegou ao poder pela força (ele bem que tentou, não deu certo): atua legitimado pela maioria dos eleitores de seu país.

Trump conta também com áulicos internacionais que não poupam esforços para lhe demonstrarem  subserviência — disputam o direito de serem pisados pelo chefe. Isso, mesmo que o sujeito, repetidas vezes, demonstre pouco se importar com esses bajuladores.

O Irã é uma ditadura, o regime dos iatolás é execrável, mas vale lembrar que a revolução ocorrida por lá derrubou uma ditadura, a do xá Reza Pahlavi, sustentada pelos Estados Unidos e por suas empresas petrolíferas. Para usar um mote comum nos últimos anos no Brasil, os EUA sempre tiveram ditadores de estimação — continuam a ter. 

Além de ser capaz de provocar um desequilíbrio importante no mundo, o conflito deflagrado com o apoio de Israel representa uma ameaça para os demais países que, de alguma forma, ousarem desrespeitar interesses da Casa Branca.

Trump — ou qualquer outro presidente dos EUA — sempre terá um motivo, real ou mentiroso, para ordenar medidas de retaliação econômica, política ou militar. Não que isso seja uma novidade, principalmente no mundo pós Segunda Guerra Mundial, mas, nos últimos tempos, essa tendência ficou ainda mais evidente. A ausência de um contraponto como a URSS deixou o caminho livre.

O atual presidente dos EUA tem, pelo menos, a vantagem de não esconder tanto seus propósitos. Não perde tempo dourando pílulas sobre democracia, liberdade, libertação de povos. Ele deixa claro que apenas defende interesses de seu país e de aliados como Israel.

Mesmo assim, tem gente do lado de cá do mundo que o aplaude, acha que, assim, será aceito na casa grande, mesmo que convocado para limpar os salões depois de festas de arromba-países.