Por: Fernando Molica

Tabelinha milícia e política

Ex-deputado Chiquinho Brazão, condenado por mandar matar Marielle | Foto: Zeca Ribeiro/Câmara dos Deputados

No julgamento dos acusados de mandar matar a vereadora Marielle Franco, o advogado Cleber exagerou ao afirmar que todos os políticos do Rio já pediram voto para traficantes ou milicianos, mas sua fala deve ser vista como um alerta. A tabelinha com o crime é algo que foi naturalizado na política fluminense.

As ligações de seu cliente, o ex-deputado Chiquinho Brazão, com grupos milicianos são antigas, o Supremo Tribunal Federal apenas respaldou o que tudo mundo sabia. Ele e o irmão Domingos, também condenado, usavam a política para legitimar atividades criminosas. 

Em 2023, o prefeito Eduardo Paes (PSD) nomeou Chiquinho secretário de Ação Comunitária — Domingos já era investigado por envolvimento no caso Marielle. Para o prefeito, o novo auxiliar era "um cara correto". 

Ao nomear Chiquinho, Paes afirmou que atendia a uma indicação do então prefeito de Belford Roxo, Waguinho, e  reproduzia no nível local uma aliança sacramentada pelo presidente Lula. 

Em 2015, Domingos, indicado pelo então governador Pezão para o Tribunal de Contas do Estado, foi eleito para a vaga com votos de 61 dos 66 deputados presentes à sessão da Assembleia Legislativa.

Também condenado pelo STF por participação no assassinato de Marielle e do motorista Anderson Gomes, o major da PM Ronald Paulo Alves Pereira recebeu, em 2004, moção de louvor da Alerj  proposta pelo então deputado Flávio Bolsonaro. 

O hoje senador justificou a homenagem  pelos "importantes serviços prestados ao Estado do Rio de Janeiro". Três meses antes, o oficial da PM participara da chacina que matou quatro jovens que saiam de uma casa noturna na Baixada Fluminense.

Em 2019, Pereira seria preso, acusado de ser miliciano, integrante da mesma quadrilha de Adriano Magalhães da Nóbrega, que, em 2005, recebeu, na cadeia, a Medalha Tiradentes das mãos de Flávio, hoje pré-candidato à Presidência. A mãe e a ex-mulher de Adriano, que seria assassinado em 2020, foram funcionárias do deputado na Alerj.

O legislativo fluminense coleciona casos de ligações de parlamentares com o crime. Em setembro passado, o deputado TH Joias (MDB) foi preso, acusado de fornecer armas para o Comando Vermelho. Três meses depois foi a vez de o presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar (União) ser levado pela polícia, suspeito de cumplicidade com o TH. Bacellar era um nome forte para a disputa do governo do Estado.

As ligações com o tráfico e a milícia não obedecem a um padrão. Há casos, como os dos irmãos Brazão, em que integram uma milícia. Outros políticos estabelecem relações de parceria, permanentes ou temporárias, que incluem a concessão de vantagens em troca de votos. 

As relações são dinâmicas e variadas, mas só são possíveis graças a uma tolerância de poderes públicos e da própria sociedade. O discurso de combate sem tréguas à criminalidade é desculpa e passaporte para políticas de extermínio executadas por criminosos muito mais poderosos que suas vítimas. A tolerância e o estímulo ao comportamento miliciano são uma forma de suicídio da sociedade, que assim se torna cúmplice do crime que tanto diz querer combater.