Por: Fernando Molica

Os Bolsonaro, por Drummond

Flávio não tem dançado junto com a madrasta | Foto: Reprodução/Redes Sociais

Michelle ama Jair, mas descarta Flávio, ironiza Eduardo e despreza Carlos, que briga com Valdemar Costa Neto. As confusões no entorno de Jair Bolsonaro fazem lembrar o poema "Quadrilha", de Carlos Drummond de Andrade — o título, importante ressaltar, faz referência às danças juninas.

Como o João do poema, Eduardo Bolsonaro foi para os Estados Unidos e, de lá, fez cobranças à madrasta e ao deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). Carlos, por sua vez, não gostou de ouvir do presidente do PL que seu pai não é o único a poder se meter na escolha de candidatos.

O difícil é apontar razões políticas para as divergências na família Bolsonaro. Assim como o chefe do clã, sua mulher e seus três filhos mais velhos não se movem em torno de causas amplas ligadas a propostas para o país, apenas lutam por seus interesses.

Neste ponto, vão além do compromisso com a família que tanto defendem — a deles. O que está em jogo é uma disputa de poder mais compatível com aquelas de contos de fadas em que madrasta e enteados disputam a herança do patriarca, preso e inelegível. 

A ênfase no personalismo é típica de políticos carismáticos, à direita e à esquerda. Bolsonaro joga nesse time assim como Lula e nomes do passado, como Getúlio Vargas, Carlos Lacerda e Leonel Brizola. O problema é que, diferentemente desses outros, Jair não tem qualquer ligação efetiva com uma visão mais ideológica e estruturada da política institucional. Move-se para onde aponta seu nariz.

Apesar de sua anunciada conversão ao liberalismo, ele nunca demonstrou entusiasmo por teses que estruturam uma visão de mundo compatível com uma direita clássica. O fato de ser contra a esquerda desde sempre não o coloca como defensor de teses capitalistas. 

Sua defesa da ditadura foi mais provocada por sua identificação com o autoritarismo corporativo do que com teses liberais: declarou que Fernando Henrique Cardoso deveria ser fuzilado por privatizar a Vale. Deputado, elogiou o peruano Alberto Fujimori e o venezuelano Hugo Chávez. Um era de direita; o outro, de esquerda, mas ambos tinham o viés autoritário que seduz Bolsonaro.

O ex-presidente sempre fez política a partir do próprio umbigo. Obrigado a encher o tanque no posto Paulo Guedes, tratou de usar uma gasolina batizada com o viés estatista da distribuição de recursos públicos, como demonstraria na eleição de 2022. No Planalto deu seguidas demonstrações de pouco interesse por políticas amplas, entregou o governo ao Centrão e correu para o cercadinho do Alvorada onde reafirmava seus preconceitos. 

O jeito autocentrado de fazer política acabou transbordando para o seu círculo mais íntimo. Ele não escolheu Flávio para disputar a Presidência por achar que o filho é o mais qualificado e com mais chances de vencer. Optou por ele para tentar conservar o poder dentro de casa. É provável que tema menos a vitória de Lula do que a de um aliado como Tarcísio de Freitas, alguém capaz de reorganizar a direita e de colocar os Bolsonaro para fora da dança.

Ao trocarem farpas em público e ao atropelarem acertos regionais feitos por aliados, Michelle e seus enteados apenas reproduzem o que aprenderam com o marido e pai. Como a Lili do poema, Jair só ama muito a si mesmo; nenhum de seus filhos quer morrer como Raimundo ou Joaquim; e Michelle descarta o exemplo de Maria, deixa claro que não ficará para titia. V. Costa Neto que se vire para coreografar esses bailarinos.