Por: POR FERNANDO MOLICA

CORREIO BASTIDORES | Roteiro do desfile previa crítica a evangélicos

Em ala, componentes com representação da Bíblia | Foto: Fernando Molica

Uma leitura prévia do roteiro do desfile da Acadêmicos de Niterói teria evitado novos problemas para o presidente Lula. A oposição tem destacado a crítica feita pela "escola do Lula" aos evangélicos e ao modelo tradicional de família.

A publicação "Abre-alas", que esmiuça os desfiles do Grupo Especial, cita que a ala número 22 da Acadêmicos teria o nome de "Neoconservadores em conserva", descreve e apresenta suas fantasias.

Revela que os componentes viriam dentro de uma representação de lata de conserva e mostrariam personagens ligados ao conservadorismo: ruralistas, defensores dos militares e "grupos religiosos evangélicos".

 

Faltou negociar

O livreto traz ilustrações com as variações de fantasias que seriam usadas pelos componentes, entre elas, a que previa um adereço de mão vermelho com uma cruz dourada, representação da Bíblia.

O "Abre-alas" só é disponibilizado no site da Liesa (organizadora do evento) no dia dos desfiles, mas nada impediria a Presidência da República de negociar com Acadêmicos um detalhamento prévio de sua apresentação.

Ligação perigosa

Lula com Eduardo Paes durante desfile da Acadêmicos | Foto: João Salles/Riotur

Alguns integrantes do governo alegam que não poderiam interferir no desenvolvimento do enredo. O problema é que o entusiasmo de Lula com a homenagem a ele e sua presença no Sambódromo criaram uma identificação muito grande dele com a escola.

Já era previsto que a Acadêmicos seria rebaixada: tem sido raro, nos últimos anos, que a escola que venha do grupo de acesso deixe de cair. Mas a ligação do presidente com o enredo acabou transferindo para ele parte do sabor da derrota.

Conservador no rótulo

Parlamentares da oposição têm deitado e rolado com mais esta crise que o governo, ainda que de forma indireta, arrumou com os evangélicos. Líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ) publicou em suas redes foto dele com a família estampada no que seria uma lata de conserva. Sob a imagem, a legenda "Conservados por Jesus Cristo".

Atrito

A presença de Lula no camarote da Prefeitura do Rio reforçou que ele e Eduardo Paes (PSD) caminharão unidos em 2026. Mas a entrevista da Folha de S.Paulo com o deputado Pedro Paulo (PSD-RJ) publicada durante o Carnaval voltou a provocar ranger de dentes no Palácio do Planalto.

Covardia

Muito ligado a Paes, ele disse que, em ano de eleição, o governo se "acovarda" e foge da reforma administrativa. O problema não foi frisar que o governo é contra a medida, mas o uso do verbo "acovardar". Segundo o parlamentar, "quando se fala em reestruturação de carreira mais rigorosa, a caneta deles falha".

Com Paes

Prefeito de Niterói, Rodrigo Neves (PDT) resolveu promover, em março, ato de apoio a Paes, pré-candidato ao governo do estado. Para não ser acusado de fazer campanha antecipada, ele diz que o evento será uma reunião de seu partido com o prefeito carioca. Será no Canto do Rio, clube de sua cidade.

Estica e puxa

Já no Carnaval passado, a Liesa criou um terceiro dia de desfiles e reduziu o número de escolas por noite, de seis para quatro. Mas, para não reduzir a duração de cada espetáculo, aumentou os intervalos entre as agremiações. Cada uma entrava na Avenida quase duas horas depois da anterior. Muita gente sai do Sambódromo ao amanhecer.

Cuba na Avenida

Ainda irritados com o desfile sobre Lula, militantes da direita ainda tomaram um outro susto ao ver bandeiras de Cuba agitadas num carro alegórico da Tuiuti, que desfilou na noite de terça. Calma: é o que enredo tratava do Ifá, religião de origem africana que floresceu em Cuba antes de vir pra o Brasil.

Receita

A hegemonia negra nas escolas e enredos como o da Tuiuti, Tijuca (Carolina Maria de Jesus), Grande Rio (Manguebeat) e Beija-Flor (Bembé do Mercado) ressaltam que desfiles de escolas de samba são também manifestações políticas. Mas o caso da Acadêmicos revelou que é preciso não errar na mão.