Por: Fernando Molica

O Velho de Camões avisou, Lula

Em "Os lusíadas", personagem de Camões alertou para os riscos da vaidade e da busca da glória. | Foto: Arte sobre imagem de Luís de Camões

Mais do que se enlevar com o samba-enredo em sua homenagem, o presidente Lula (PT) deveria ter dedicado alguns minutos de seu dia para ler versos clássicos, sábios e prudentes:

 

Ó glória de mandar! Ó vã cobiça

Desta vaidade, a quem chamamos fama! 

Ó fraudulento gosto, que se atiça.

 

O alerta está em "Os Lusíadas", de Luís de Camões — há 454 anos, as estrofes dedicadas às arengas do personagem Velho do Restelo contra as grandes navegações portuguesesas servem de aviso aos que se deixam levar pela vaidade. 

Com palavras que poderiam servir de inspiração ao ministro do Vai dar M., proposto por Chico Buarque, o Velho alerta Vasco da Gama para o desatino que seria ceder à ambição de, em busca da glória, lançar sua esquadra ao mar:

 

Sagaz consumidora conhecida

De fazendas, de reinos e de impérios!

Chamam-te ilustre, chamam-te subida,

Sendo dina de infames vitupérios;

Chamam-te fama e glória soberana,

Nomes com quem se o povo néscio engana!

 

Lula deveria saber do risco de aceitar a homenagem proposta pela Acadêmicos de Niterói, agremiação novata que, ao optar pela homenagem a Lula, buscou não passar em branco na Avenida.

A direção da escola jura que a escolha do enredo foi uma decisão tomada sem qualquer interferência externa, mas a proposta foi levada até Lula, que gostou da ideia. A hora é essa, Camões:

 

Que promessas de reinos, e de minas

D'ouro, que lhe farás tão facilmente?

Que famas lhe prometerás? que histórias?

Que triunfos, que palmas, que vitórias?

 

Envaidecido, Lula fez como Vasco da Gama, tocou o barco e mandou o Velho comer tremoços e parar de reclamar. Afinal, a escola dissera que narraria a saga comandadada por Dona Lindu, mãe do presidente. O problema é que o enredo foi além disso, como previu o poeta: 

 

A que novos desastres determinas

De levar estes reinos e esta gente?

 

Os autores do samba cometeram o que, no futebol, é chamado de dar um drible a mais. Clonaram trecho do jingle de campanha do presidente, o "Lulalá", e enfiaram o 13 petista na letra. Diferentemente do Fio Maravilha, de Jorge Benjor, os compositores não tiveram humildade em gol.

O desfile em feitio de propaganda atiçou a oposição, que tratou de recorrer à Justiça Eleitoral. A turma palaciana que joga na redução de perdas entrou em campo e fez como o técnico que, diante da perspectiva de tomar uma goleada, fecha o time na defesa: "Arrecua os arfes pra evitar a catástre!". 

Preocupado, o governo recuou: impediu o desfile de ministros; na última hora, surgiu um cartão vermelho para Janja, mulher do presidente, que chegou ao Sambódromo pronta para subir no carro. 

Mas, como qualquer pessoa que conheça um pouquinho de Sapucaí sabe, Carnaval é imprevisível. Não dá para controlar todos os detalhes, desfile não é peça publicitária produzida pelo marqueteiro de plantão.

Focado na Justiça Eleitoral, o Planalto não atentou para o desfile em si e acabou surpreendido com a crítica a evangélicos e à família tradicional. Agora, tenta consertar o que poderia ter evitado se tivesse ouvido as pragas lançadas pelo Velho.

Dizem que risos do antigo habitante do bairro do Restelo têm sido ouvidos nos corredores do Palácio da Alvorada. Parece que, de vez em quando, o próprio fantasma recita alguns versos, com seu acentuado sotaque luso. Com jeito, dá até pra virar letra de samba-enredo:

 

Buscando o incerto e incógnito perigo,

Por que a fama te exalte e te lisonje,

Chamando-te senhor com larga cópia,

Da Índia, Pérsia, Arábia e de Etiópia!