Os carinhos e as bicadas de partidos do Centrão à direita e à esquerda não devem espantar ninguém. Esse conglomerado amorfo de partidos, políticos e interesses está onde sempre esteve. Não em um inexistente equilíbrio ideológico entre um lado e outro, mas, como águia, pousado no alto de um penhasco observando qual cenário lhe será mais vantajoso.
Diferentemente de petistas e bolsonaristas, os integrantes do Centrão têm a certeza de que, mais uma vez, sairão vencedores na eleição de outubro, indepedentemente de quem será o futuro presidente da República — este precisará do apoio dos partidos que tendem a continuar formando a maioria na Câmara.
Para o Centrão, eleição presidencial é, portanto, um jogo de ganha-ganha. Ganham se estiverem ao lado do vencedor e caso tenham feito campanha para outro candidato. O vencedor vai precisar do grupo que, por sua vez, tem que eleger bancadas fortes, responsáveis pela posição privilegiada que garantem há décadas.
Essa condição de vencedores antecipados faz com que esses partidos possam se dar ao luxo de esticarem as conversas com os seus principais pretendentes, Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL). Estes têm pressa, mas o Centrão prioriza o de sempre, seus próprios interesses, nacionais e, principalmente, os regionais.
É nos estados, afinal, que serão eleitos os senadores e deputados federais que vão dar musculatura ao Centrão. O fundamental, portanto, é garantir boas votações para o Congresso. E nada impede, como sabemos, que candidatos ao parlamento contrariem o que estabelece uma eventual coligação nacional.
No Nordeste, noves fora o que for decidido pelos diretórios nacionais das legendas do Centrão, candidatos a deputado tendem a, na prática, apoiarem Lula. Deixarão que o PL bolsonarista descarregue todo o seu ódio no petista, eles preferirão dizer que reconhecem qualidades no filho de Garanhuns (PE).
No Sul e no Centro-Oeste tende a ocorrer o contrário. Candidatos que evoluem entre as clássicas definições ideológicas como se estivessem num rinque olímpico de patinação continuarão a garantir seus ouros, suas pratas e seus bronzes. Por lá, vestirão a camisa amarela que tanto lhes cai bem.
Enquanto isso, tratam de manter cargos no governo federal; procuram, como o senador Ciro Nogueira, presidente do PP, viabilizar suas próprias vitórias nos estados. Ainda aproveitam os braços abertos de Lula para fustigarem Flávio Bolsonaro que, na lógica determinada pelo pai, procura criar alianças baseadas em promessas de fidelidade.
Velho de guerra, pronto para encarar sua sétima disputa pelo Palácio do Planalto — fora as três em que atuou como coadjuvante de luxo —, Lula sabe que amores eleitorais são tão volúveis quanto os de Carnaval. Quer é, mais uma vez, botar seu bloco na rua sem cobrar pelo abadá, sem pedir carteirinha nem atestado de bons antecedentes.
Como o narrador de "Noite dos mascarados", clássico do amigo Chico Buarque, Lula cantarola nos ouvidos do Centrão: "Deixa o barco correr/ Deixa o dia raiar, que hoje eu sou/ Da maneira que você me quer./ O que você pedir eu lhe dou,/ Seja você quem for/ Seja o que Deus quiser".