Porta-bandeira da Estação Primeira de Mangueira, Cintya Santos mostra, com sua dança e com sua postura, que o componente político dos desfiles das escolas vai muito além dos enredos e das letras dos sambas.
Ela está para a escola como a mulher que segura a bandeira francesa e serve de guia para os revolucionários no quadro "A Liberdade guiando o povo", de Eugène Delacroix.
Cintya faz jus ao apelido de Furacão, que acabou estendido para a dupla que forma com Matheus Olivério, o mestre-sala. Filha e neta de porta-bandeiras, negra, criada na favela Vila Ipiranga, em Niterói, trabalhava como faxineira até trocar a Porto da Pedra por Mangueira.
Estava limpando uma casa quando, em 2022, recebeu uma ligação da presidente da Verde e Rosa, Guanayra Firmino — desligou, achou que era trote (só acreditou no convite quando, em seguida, recebeu uma chamada de vídeo). No dia seguinte, aceitou o desafio de ser protagonista da mais amada das escolas.
Indicada por Matheus, seu bailado assustou quem se acostumara com a imagem mais comum das porta-bandeiras, mulheres que emanam uma tradição de realeza; não à toa, seus passos e vestimentas são inspirados nos grandes salões de baile europeus.
Até hoje referência no Carnaval, a portelense Vilma Nascimento incorporava a elegância e a delicadeza que fizeram com que passasse a ser chamada de Cisne da Passarela.
A cada vez maior influência de coreógrafos e julgadores oriundos do balé clássico radicalizou a tendência de se levar para o Sambódromo um tipo de dança que remete a pinturas de Edgar Degas, teatros imponentes e sapatilhas.
Com Cintya, a história é outra, a chapa é bem mais quente. Ao repertório típico de suas colegas, ela acrescenta gestos harmoniosos, porém duros, enfáticos, quase ríspidos.
Além de exibir a bandeira, ela a empurra, a esfrega em nossa cara. Cada vez que gira, cria encanto e beleza, mas também ressalta a miséria e a injustiça de um país que teima em ser tão desigual. É princesa que não deixa ninguém esquecer seu passado de gata borralheira.
Furacão, esgarça a bandeira, a estica no seu limite, faz ventar na Avenida. Dono de um belíssimo repertório de passos e mesuras, Matheus sabe da força que tem ao seu lado; mais do que protegê-la — função básica do mestre-sala —, ele trata de garantir condições para a evolução da parceira. É como se anunciasse: cuidado que a Cintya vem aí, é bom se segurar.
No caso dela, a função que exerce merece ser tratada com o uso de um plural compatível com a história e compromissos do Morro de Mangueira. Ela é uma porta-bandeiras — além de carregar o pavilhão da mais bela das escolas, empunha uma série de outros.
Seus braços fortes exibem muitas bandeiras: a da cultura popular brasileira, a da ancestralidade, a dos meninos e meninas de favelas, a da educação, a da luta contra a miséria, o racismo e a violência que mata, principalmente, pretos e pobres.
Em suas mãos, a bandeira mangueirense é também faixa que grita protestos, que exige uma vida melhor para os brasileiros; Cintya chama o povo daqui, junta o povo de lá.
Para, mais uma vez, aqui citar Manuel Bandeira, ela parece farta do lirismo comedido, do lirismo bem-comportado. Não quer saber do lirismo que não seja libertação.