Por: Fernando Molica

A fantasia do desejo cívico-militar

Alunos de escola cívico-militar criada por Jair Bolsonaro | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

As escolas cívico-militares não passam de enganação simplória respaldada em fantasias autoritárias, mas a popularidade da iniciativa entre parcelas da sociedade deveria gerar discussões mais amplas sobre o ensino público.

É preciso diferenciar o oportunismo de políticos da busca, por pais e alunos, de uma educação que associe  qualidade e que se dê em espaços onde haja condições para o exercício das tarefas de ensinar e aprender. O exercício da democracia, a busca de inclusão e a abolição de mecanismos arbitrários e discriminatórios são pontos positivos que arejaram a sociedade em geral e as escolas em particular.

Mas não é simples operar uma transição, ainda mais em ambientes marcados pela desigualdade e pelo descaso do poder público. Há décadas que a sociedade, de um modo geral, admite que ensino básico oferecido pela rede oficial é — com as exceções de praxe — inferior ao da rede privada. Uma distorção aceitável apenas pela tradição excludente brasileira.

Instalações deficientes, baixa remuneração de professores e funcionários e falta de mecanismos de apoio e de incentivo aos estudantes permitem que, muitas vezes, a escola seja invadida por conflitos e contradições existentes fora de seus muros.

Sem dispor — ainda bem — de mecanismos de controle existentes no passado, como expulsões sumárias de alunos, e sem estrutura para construir alternativas de convivência, muitas escolas foram jogadas em um impasse. Viram-se incapazes de elaborar e implantar formas respeito e (por que não usar a palavra?) disciplina.

As escolas cívico-militares acabam ocupando um espaço que vai na mesma linha de políticos que, de maneira cíclica, prometem acabar com a bandalheira, corrupção e bandidagem. Diante das dificuldades apresentadas por uma educação que se propõe mais ampla, os quartéis escolares surgem como uma alternativa possível. Estão para a educação como o regime de Nayib Bukele, de El Salvador, para a democracia. Servem também para aumentar ganhos de PMs.

Muitos pais querem uma escola em que professores não precisem gritar o tempo todo com os alunos e que não temam agressões. Para isso, aceitam uma instituição que imponha ordem unida, formate cabeças e comportamentos, que limite sinais externos de inconformismo, como cabelos longos e saias curtas.

A escola ganha assim uma função de controle externo como a exercida por muitas denominações religiosas, que, aliadas à ameaça da danação eterna, impõem o que classificam de jeito correto de se viver. Chega a ser caricatural entregar a policiais militares a função de cobrar o respeito à lei e à ordem, mas a necessária condenação ao modelo criado no mandato de Jair Bolsonaro não pode ignorar que se trata de uma alternativa aprovada por muita gente; pessoas cansadas de constatar o desinteresse de seus filhos pela escola, de ouvir relatos de agressões e de outras formas de violência.

Agarram-se ao novo modelo não porque vejam nele uma solução ideal, mas uma saída viável. O problema é da sociedade, até aqui incapaz de construir uma escola pública de qualidade e comprometida com a democracia.

(Ah, os erros de grafia de palavras cometidos por um tenente da PM em Caçapava [SP] não devem ser tomados como algo padrão nesse tipo de escola, mas servem de alerta para todo mundo).