A tortura e o assassinato do cachorro Orelha são, por óbvio, execráveis e imperdoáveis — os responsáveis têm que ser punidos. A repercussão do caso e a mobilização popular decorrentes do crime merecem, porém, algumas reflexões num país onde tanta gente normaliza a tortura e os assassinatos de seres humanos.
Na semana passada, o Tribunal de Justiça do Rio adiou para o dia 10 o julgamento de policiais militares acusados do homicídio do estudante Thiago Menezes Flausino, 13 anos, morto em 2023 durante operação na Cidade de Deus. Na época, um protesto contra o assassinato reuniu menos de 40 pessoas na Praia de Copacabana.
Em julho de 2024, a juíza Juliana Bessa Ferraz Krykhtine absolveu sumariamente os policiais acusados da morte do adolescente João Pedro Mattos, de 14 anos, morto em sua casa no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo. A repercussão ficou limitada a manifestações de parentes e de entidade de defesa de direitos humanos.
Vale frisar que não seria possível grudar nos nomes de Thiago ou de João Pedro o particípio do verbo envolver: eles não eram "envolvidos" com qualquer atividade criminosa. De uns anos para cá, a palavra passou a ser usada para justificar e amenizar mortes de pobres e pretos pela polícia e, assim, desistimular reclamações. Feminicídios e assassinatos da população LGBTQIAPN não costumam gerar protestos massivos.
Longe de pregar a impunidade dos que fizeram tanta maldade com o Orelha, mas não é concebível o linchamento virtual contra os suspeitos. Até mesmo pessoas que pregam o respeito à lei e aos direitos de cada um de nós reagem de maneira incompatível com suas próprias histórias de vida, revoltam-se contra o fato de os possíveis autores do crime serem classificados de adolescentes.
O erro não está em chamá-los assim, mas de reservar este tratamento apenas a jovens brancos e de classe média suspeitos de cometer crimes. Caso fossem pobres, provavelmente receberiam o epíteto de "menores", adjetivo que, desacompanhado da expressão "de idade", passou a ser um substantivo usado para designar jovens pretos suspeitos de algum crime.
É também comum ouvir, no caso do Orelha, que, diferentemente de seres humanos, animais são puros, amorosos, fiéis, solidários. Um tipo de classificação compreensível, mas que revela dificuldade de adaptação ao universo humano, imprevisível e imperfeito.
Longe de mim questionar o amor, o carinho e o respeito que unem pessoas e seus bichinhos. O texto de Carlos Heitor Cony sobre a morte de Mila, a cachorrinha que, segundo ele, o havia escolhido para dono (na época não se falava em tutor), é lindo, emocionante.
Ao narrar, em "Vidas secas", a morte da cadela Baleia, Graciliano Ramos faz com que torçamos para a existência do tal céu cheio de preás, gordos, enormes. Já testemunhei e compreendi o sofrimento de queridos amigos que perderam cães e gatos com os quais partilhavam afetos e vida.
Mas a ideia de considerar animais superiores a humanos é complicada. No limite, revela incapacidade de relação com o diferente, com as surpresas que a vida sempre nos apresenta. Por mais que amemos uma pessoa, esta sempre pode nos surpreender, nos abandonar, nos decepcionar. Da mesma forma que cada um de nós pode fazer isso; certamente já fizemos.
Diferentemente do que ocorre na relação com pets, dar comida, abrigo e carinho não são garantias de fidelidade humana. As relações com nossos semelhantes são mais complexas e, por isso, mais desafiantes e incontroláveis. A tristeza, e a indignação pelo que houve com Orelha ressaltam nossa humanidade, reforçam a necessidade de se fazer justiça. Mas não podemos ser indiferentes àqueles que, gente com a gente, são chutados, humilhados, torturados e mortos