Por: Fernando Molica

Toffoli, enfim, piscou

Toffoli admitiu que caso poderá voltar a instância inferior | Foto: Nelson Jr/SCO/STF

Como dizem — ou diziam — os norte-americanos -, o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, piscou. Não resistiu ao olho no olho relacionado à sucessão de medidas equivocadas por ele cometidas no caso do Master.

Ontem, o ministro divulgou nota em que, enfim, admite devolver o caso para instâncias inferiores. A história do banco corria na primeira instância até a defesa do ex-banqueiro Daniel Vorcaro citar uma negociação imobiliária, que acabou não ocorrendo, entre ele e um deputado federal.

A fracassada operação de compra e venda com o parlamentar justificaria o uso do elevador processual e a desova do caso no STF, forçada de barra de dar inveja aos procuradores e juiz da Lava Jato, que jogaram numa vara federal de Curitiba (PR) quaisquer casos que pudessem ter alguma relação com seus suspeitos favoritos e a Petrobras.

Toffoli tratou de jogar cascas de banana para ele próprio escorregar, tomou decisões tão atabalhoadas que, diversas vezes, viu-se obrigado a voltar a atrás. Para piorar, vieram à tona casos como sua carona em jatinho de advogado do Master e a esquisita compra e venda, por irmãos do ministro, de um resort paranaense que tem um cassino entre suas atrações. 

A situação chegou a tal ponto que ficou difícil até para colegas de Toffoli no STF sustentarem a situação do ministro. Era tanta gente criticando o relator que faz lembrar uma história contada pelo ex-governador Carlos Lacerda no "Depoimento", ótimo livro organizado por Cláudio Lacerda.

Em 1954, Lacerda tentava obter apoios para forçar a renúncia do presidente Getúlio Vargas, e ouviu do general Carnobert Pereira da Costa, ex-ministro da Guerra, que ele só se mobilizaria se até o Clube de Regatas do Flamengo entrasse na briga. Golpista vocacionado, Lacerda conseguiu a tal moção do clube da Gávea (recorri ao amigo Mário Magalhães, que este ano lançará o primeiro volume da biografia do ex-governador, para recordar detalhes do episódio).

É bem provável que, se acionadas, as torcidas dos grandes times brasileiros assinassem um pedido para que Toffoli abandonasse o barco do Master. Melhor pegar o caminho de volta do que se arriscar, lá na frente, ser destituído da relatoria. Ele já estará no lucro se alguma investigação não apontar nenhum indício mais relevante contra ele. 

A futura saída do ministro da relatoria não resolverá, porém, todos os problemas ligados à investigação. Na época da Lava Jato, o então ministro Teori Zavascki citou um velho dito popular para definir a dimensão que o caso ganhara. Falou que, ao se puxar uma pena, viera uma galinha.

O master caso é pior. Tudo indica que galinheiros inteiros chegarão à Justiça caso as diferentes penas das investigações sejam devidamente puxadas. Como na história do roubo do INSS, é impossível que uma trama desse tamanho tenha existido sem parcerias e cumplicidades com diferentes níveis de poder (e variadas raças de galináceos).

É bem possível que, lá na frente, o caso volte ao STF, devidamente recheado com nomes que carreguem prerrogativas de foro em suas vastas penugens. Neste caso, porém, a investigação subirá sem despertar suspeitas. A trilha sonora para o evento poderá ser a marcha "Galinha pintadinha": haverá no processo muitos galos que usam paletó.