Ao filiar o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, ao seu (o possessivo aqui é literal) PSD e postar foto de ambos ao lado de dois outros presidenciáveis do partido, Gilberto Kassab caminhou para o lugar em que se sente mais confortável, o de fiel da balança.
Secretário de Governo e Relações Institucionais da administração Tarcísio de Freitas (São Paulo), Kassab mantém três ministros na Esplanada lulista, Pesca, Agricultura e Minas e Energia. Os nomes das pastas chegam a ser simbólicos: o presidente do PSD é muito bom nas artes de pescar, plantar e minerar.
Ao anunciar nas redes sociais que os três pré-candidatos — além de Caiado, Eduardo Leite (RS) e Ratinho Junior (PR) — "passam a trabalhar juntos no PSD na busca de uma candidatura a presidente da República que traga um projeto para o futuro do nosso País", Kassab deixa tudo em aberto.
Como uma loja de departamentos, oferece várias opções: há o antipetismo atávico do radical Caiado, a moderação de Leite e a quadratura do círculo representada por Ratinho, que tenta encarnar o impossível bolsonarismo moderado. Tem mais: a frase publicada na noite de terça não banca que um dos três será candidato.
Ele falou em "busca de candidatura", não em candidatura própria. Vai que, numa esquina dessas, em meio às buscas, eles encontrem o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), ou Tarcísio, ou mesmo Lula.
Tudo é possível para o dono de um partido que, como ele mesmo declarou tempos atrás, não é de direita, de esquerda ou de centro.
O descompromisso com qualquer projeto ideológico ou de governo, transforma Kassab na tal metamorfose ambulante citada por Lula. A amplitude de suas opções permite que ele justifique apoio a qualquer projeto presidencial; traça o que chegar melhor. Tudo vai depender dos interesses de seus próprios interesses e dos manifestados por seus companheiros de partido.
De certa forma, Kassab personifica o que nos acostumamos a ver no MDB, este pioneiro que abriu caminhos para a proliferação da geleia geral da política brasileira — a "vanguarda do atraso", para citar a definição de José Sarney feita pelo ex-ministro Fernando Lyra.
Mas o velho partido nascido para fazer oposição à ditadura tem a diversidade como princípio, o que inclui um respeito quase absoluto a decisões de diretórios regionais. Kassab incorpora essas divergências em si, o que facilita sua vida e dificulta a dos eventuais aliados.
Ele não esconde essa característica. Em abril de 2016, deixou o ministério de Dilma Rousseff às vésperas da votação do impeachment da presidente na Câmara — seu partido votou majoritariamente contra ela. Menos de um mês depois, virou ministro de Michel Temer.
Tudo passa, tudo sempre passará, como diriam Nelson Motta e Lulu Santos; "Eles passarão... / Eu passarinho!", cravou Mário Quintana. Ou, parafraseando Ibrahim Sued, os cães ladram, a caravana de Kassab passa.
Ao levar Caiado para seu time e sinalizar que o PSD terá candidato, Kassab abre caminho para infinitas conversas. Em tese, Lula poderia demitir os três ministros do partido, mas é improvável que o faça; pelo menos, até abril, quando candidatos a cargos eletivos terão que deixar o governo. Tarcísio também deverá deixar tudo como está.
Nem Jair Bolsonaro, que nunca engoliu Kassab, deve querer comprar briga com um eventual aliado, ainda que num segundo turno. Como diriam crupiês daquele cassino do famoso resort paranaense, façam o jogo, senhoras e senhores.