Por: Fernando Molica

Raio é da ignorância, não de Deus

Bombeiros socorrem feridos por raio em Brasília | Foto: Reprodução/redes sociais

Deus é inocente: a ignorância, o fanatismo, o desprezo pela ciência e a indecente mistura de fé e política são os grandes culpados pelas consequências do raio que atingiu a manifestação de domingo em Brasília e fez com que 89 pessoas fossem atendidas pelos Bombeiros (47 tiveram que ser levadas a hospitais, oito ainda estavam internadas ontem).

Os ingredientes são os mesmos utilizados pelos que pregavam contra a vacina, que atrasaram a compra de imunizantes e colaboraram para a morte de cidadãos.

No domingo, o Instituto Nacional de Metereologia divulgou boletim que incluía Brasília em área laranja, sujeita a "chuvas intensas", com risco de corte de energia elétrica "queda de galhos de árvores, alagamentos e de descargas elétricas". O Inmet usou a palavra "perigo".

Qualquer um sabe que é preciso evitar lugares descampados em casos de tempestades, o próprio corpo humano pode servir para atrair raios. Objetos metálicos, como o guindaste utilizado no ato de Brasília, atraem descargas, fazem, na prática, o papel de para-raios (estes, porém, são construídos para dissiparem a eletricidade). As cercas metálicas utilizadas lá também são ótimas transmissoras de eletricidade.

As condições adversas para a realização do ato eram, porém, propícias para reforçar o caráter religioso do evento, ressaltavam a ideia de luta, de resistência, de sacrifício, um roteiro cultivado por várias manifestações de fé, inclusive por diversas denominações evangélicas.

Quanto maior o inimigo, maior será a vitória, proclamam tantos e tantos pastores. Não é à toa que falam tanto no demônio, enfatizam sua onipresença e seu poder: é preciso ter um antagonista forte para que a glória seja maior, incontestável, absoluta.

Por se julgarem protegidas por Deus, aquelas milhares de pessoas presentes ao ato se lixaram para o óbvio, para o que aprenderam quando eram crianças: afinal, todo e qualquer sacrifício é justificável quando se busca algo maior.

Em vídeos que registram a queda do raio é possível ouvir que, naquele momento, o sistema de som transmitia uma canção que se assemelha a um louvor evangélico, havia o claro objetivo de criar um ambiente de comoção típico de cultos neopentecostais.

As condições climáticas eram também perfeitas para que o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), filho de um pastor, ressaltasse sua jornada, sua imolação. Tanto que ele tratou de não cancelar o ato. Ao deixar de cuidar de seu rebanho, foi cúmplice do que ainda pode vir a ser uma tragédia.  

Aliados de Jair Bolsonaro têm o óbvio direito de protestarem contra sua condenação e prisão, o problema é dar conotação religiosa a atos de características políticas. Desde seus primeiros passos, a caminhada fez questão de agregar o viés religioso. Um recurso irresponsável que desestimula a razão e ressalta a fragilidade de argumentos políticos.

É preciso apurar as resposabilidades dos que não tomaram providências para evitar que tanta gente ficasse em risco, que dezenas sofressem consequências mais graves. Tomara que o caso sirva também de lição para os que, movidos por um messianismo temperado por arrogância e oportunismo, jogam nas costas de Deus um peso que não Lhe pertence. Nenhum deus é contra o conhecimento.