Por: Fernando Molica

A arte que revela o valor

Stellan Skarsgård e Renate Reinsve em "Valor sentimental" | Foto: Divulgação

Além de abordar delicadas relações familiares com extrema sensibilidade, o belíssimo filme norueguês "Valor sentimental", de Joachim Trier, é uma espécie de libelo sobre o valor da arte e da ficção. Ganhador do Grand Prix do Festival de Cannes e indicado ao Oscar de melhor filme internacional, revela o quanto de libertação e de descoberta há no processo criativo.

Contar uma história, até mesmo para quem a vivenciou, é também uma forma de desvendar facetas e detalhes escondidos. Cada olhar é sempre particular, original, desbravador. Mesmo que baseada de maneira rígida em fatos reais, qualquer narrativa sempre carrega uma nova leitura dos episódios que aborda, dialoga e negocia o tempo todo com a ficção. Por mais que busque ser fiel ao ocorrido, um escritor, cineasta, compositor ou dramaturgo transmitirá o seu próprio olhar, a sua versão.

"Valor sentimental" narra a tentativa de um cineasta, Gustav (Stellan Skarsgård), de convencer uma de suas filhas, a atriz Nora (Renate Reinsve), a estrelar sua próxima produção. Um longa-metragem que seria gravado na casa onde ele vivera com a família antes de se divorciar da mãe delas.

O contexto faz com que Nora rejeite a proposta, sequer queira ler o roteiro. Há muitas mágoas acumuladas, e a insistência do pai em tê-la como protagonista e usar a casa como cenário reforça o afastamento. A personagem não quer saber de, supostamente, reviver uma história que inclui uma tragédia relacionada à sua avó, mãe de Gustav. Não quer servir de cavalo para a incorporação de espíritos e episódios com os quais seu pai nunca soube lidar — nem ela.

Nora rejeita ser usada, não haveria diálogo ou colaboração possível com aquele pai que fora morar em outro país, que sumira da vida dela e da irmã. Havia muitas questões soltas, pontas desamarradas e que, aparentemente, seriam impossíveis de serem recompostas.

Mas é aí que entra a arte, sutil e supreendente como um aparelho de aquecimento doméstico que, no passado, permitia às filhas ouvirem o que diziam pacientes da mãe, psicóloga. A criação é meio assim, escuta o que não deveria ser ouvido, vê através de paredes, percebe um óbvio que estava oculto. No filme, a tela, aos poucos, toma o lugar do divã do antigo consultório.

Não vale adiantar o desfecho do filme sobre o filme. Mas vale ressaltar o quanto ambos expõem a teia construída por quem precisa contar histórias para torná-las reais e, assim, conseguir vê-las, entendê-las e, se for o caso, superá-las.

Como Gustav mostra para o neto, vale recorrer a truques de enquadramento e montagem para captar e traduzir uma realidade e recriá-la. Um processo infinito que se completa em cada criador, entre eles, leitores, espectadores e ouvintes: qualquer história é sempre diferente para cada um de nós. 

O escritor Marçal Aquino disse que escreve livros para saber o final de cada uma de suas histórias; o prêmio Nobel de literatura Gabriel García Márquez afirmou que vivia para contar.

Trier e seu colega Gustav filmaram para descobrir, para entender, para resolver questões que, no fim de cada sessão, despertam e criam novas interrogações, provocam desafios, indicam possiveis caminhos, inspiram outros criadores, refazem e renovam vidas que nunca terminam.