Por: Fernando Molica

Trump: Homer Simpson no poder

Trump postou imagem fake em que toma posse da Groenlândia | Foto: Reprodução/ Donald Trump - Truth Social

A maioria das críticas ao comportamento de Donald Trump evita dizer o óbvio: o sujeito está na Casa Branca por decisão soberana dos eleitores norte-americanos. Diferentemente do que ocorreu em 2016, em 2024 ele venceu também no voto popular, não apenas no Colégio Eleitoral.

Em linhas gerais, suas atitudes refletem desejos dos cidadãos dos Estados Unidos — e ele não pode ser acusado de ter sido insincero. Seus gestos, declarações e ameaças correspondem a promessas de campanha. Claro que ele inclui novidades, como a incorporação da Groenlândia, mas esse tipo de doideira é como uma espécie de improviso de um jazzista, algo diferente mas compatível com a linha melódica do tema.

Não deixa de ser surpreendente que a maior parte da população de um país como os EUA acredite nas incontáveis mentiras ditas por Trump. Mas isso está longe de ser algo novo: quem imaginaria que o instruído e ilustrado povo alemão permitisse algo muito grave, como a chegada dos nazistas ao poder?

Uma olhada mais cuidadosa mostra que o intervencionismo descarado de Trump tem muito a ver com uma face importante da cultura norte-americana, um país que aprendeu desde sempre a olhar, principalmente, para dentro de si. Até hoje, as competições mais importantes para a população dos EUA não são as internacionais, mas as disputas internas de basquete, futebol americano e beisebol. 

Para muitos cidadãos de lá, o mundo que importa está dentro de suas fronteiras. Essa característica é bem visível na produção de filmes e seriados, principalmente dos mais antigos, que reforçavam a visão de uma classe média branca e excludente.

Na década de 1970, fez muito sucesso uma série chamada "Família Dó-Ré-Mi", que tratava de banda formada por uma viúva e seus cinco filhos. Num dos episódios, a mãe fala sobre outras culturas e sugere preparar, a cada semana, um prato típico de país estrangeiro. Ao consultar a trupe sobre qual deveria ser o primeiro da lista, ouve a resposta unânime: hamburguer. Ninguém queria experimentar o desconhecido.

Homer Simpson é, talvez, a melhor tradução dessa lógica que acha feio, estranho e perigoso o que não é espelho, que não reflete o universo de sua Springfield (uma vez li que este é o nome mais comum de cidades dos EUA). Uma vez, ele a família foram parar no estrangeiro, num país do hemisfério sul: Homer só queria saber se era verdade a história de que, do outro lado da Linha do Equador, a água da privada girava para o outro lado.  

Seria até inocência achar que a ignorância em relação ao outro não é algo estratégico na cultura norte-americana. Povos desconhecidos geram menos empatia e solidariedade, tendemos a nos comover mais quando uma tragédia atinge um lugar que, por diferentes razões, nos seja mais próximo. 

Em um país com tamanha tradição intervencionista, é até bom que seus cidadãos não saibam muito bem quem são haitianos, brasileiros, árabes, vietnamitas e — agora — dinamarqueses e groenlandeses. Nós, todos nós, somos os outros, representamos a ameaça, o invasor, o diferente. No fundo, Homer tem medo da gente e concorda que, de vez em quando, é bom distribuir umas chicotadas naqueles que, na sua precária visão de mundo, representam algum tisco.