Por: Fernando Molica

O Rosebud de Donald Trump

Rosebud, o trenó de "Cidadão Kane", exposto no Museu do Oscar. | Foto: FM

Não é impossível que diante de novas estrepolias de Donald Trump, até mesmo líderes conservadores europeus tenham saudades da União Soviética. Extinta em 1991, implodida pelos seus próprios defeitos e limitações, a pátria-mãe do socialismo era uma ditadura — ditaduras são sempre indefensáveis — mas consegioa segurar delírios norte-americanos.

Com participação essencial na II Guerra Mundial — perdeu, pelo menos, 17 milhões de cidadãos, contra 292.000 dos Estados Unidos e 396.000 do Reino Unido —, a URSS saiu fortalecida na nova ordem mundial construída a partir de 1945. Seu poder econômico e sua capacidade bélica foram decisivos para servir de contraponto aos EUA. A guerra fria garantiu uma relativa paz, ainda que pontuada por diversos conflitos regionais.

A decadência e fim da URSS provocaram reações entusiasmadas por parte do Ocidente, muitos trataram de pintar um mundo róseo, pacífico, próspero e feliz, embalado pelo liberalismo da britânica Margaret Thatcher e do norte-americano Ronald Reagan.

Apressado, o filósofo e economista nipo-americano Francis Fukuyama comeu cru ao proclamar o fim da história — livre da ameaça comunista, a Terra teria prosperidade, liberdade, harmonia, todos seríamos felizes. Deu no que deu. Associado à revolução tecnológica, o capitalismo se expandiu de maneira ilimitada, baniu empregos, concentrou riqueza, inteligência, informações e capital, desconheceu fronteiras, quebrou parâmetros clássicos de representação política, gerou infinitos focos de nacionalismo inspirados na tradição excludente e de viés religioso da extrema direita.

Trump é uma consequência quase inacreditável e caricatural de um poder que se revela supremo. De protetor do Ocidente, fiador da democracia liberal e do modelo de livre comércio, os Estados Unidos perderam a vergonha. Sequer têm preocupação de disfarçar seus objetivos de dominação, nem repetem as  baboseiras de defesa da democracia, da paz, da livre iniciativa.

Os EUA agem como uma criança pidona, manhosa, birrenta e cheia de poder. Trump quer a Groenlândia, o Prêmio Nobel da Paz, o petróleo da Venezuela. Maldito aquele que, há mais de 70 anos, negou ao pequeno Donald o equivalente ao Rosebud, o trenó perdido na infância por Charles Foster Kane no clássico e genial filme de Orson Welles. 

O tão celebrado sistema de freios e contrapesos da democracia norte-americana revela-se frágil, incapaz de resistir ao avanço dos delírios nascidos na Casa Branca e cultivados pela maioria dos eleitores do país. A propalada Justiça do país demonstrou conivência com um ato ilegal, o sequestro do ex-presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, que continua preso mesmo depois de o governo norte-americano retirar a acusação de que ele integrava um inexistente cartel de traficantes.

Diante da ameaça diariamente renovada por Washington, o mundo reage com perplexidade e medo: como ao menos moderar a insaciável sede de poder da mais poderosa economia, do país que, de longe, tem a maior capacidade bélica? Como como domesticar ou botar pra ninar um bebê super-homem, que não perde a chance de mostrar sua força? 

Talvez o jeito seja continuar a estabelecer contrapressões, criar embaraços, fazer protestos, ao menos dificultar o avanço do inimigo e contar com o tempo, com o avanço da história. Do outro lado do mundo, uma China que não quer saber de guerra, aproveita o escarcéu trumpista para crescer. A história não acabou, está sempre recomeçando.